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Artigos Edição 5º Ano 2020

Estudo Comparativo de Substitutos do Leite para Aleitamento Artificial de Potros

Estudo Comparativo de Substitutos do Leite para Aleitamento Artificial de Potros 1
V.5, Ed.1, N.85(2020)

ESTUDO COMPARATIVO DE SUBSTITUTOS DO LEITE PARA ALEITAMENTO ARTIFICIAL DE POTROS

COMPARATIVE STUDY OF MILK SUBSTITUTES FOR ARTIFICIALLY SUCKLED FOALS

 

Neyze Wawel Ladislau Ferreira Chaves¹, Isabella Fonseca Coelho Marçal¹, Jorge José Rio Tinto de Matos²
¹ Graduandas em Medicina Veterinária pela Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais, Campus Betim.
² Professor do Departamento de Medicina Veterinária da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Campus Betim.

RESUMO

A criação de potros órfãos ainda é um desafio na neonatologia equina, e um dos principais problemas que se impõe é a nutrição desses animais. A alternativa ideal para suprir as necessidades do potro órfão é através do próprio leite de égua. Entretanto, como muitas vezes na rotina clínica essa alternativa não está disponível, com frequência é necessário que se recorra ao aleitamento artificial, o qual pode ser realizado empregando substitutos caseiros ou comerciais.

O presente estudo buscou comparar uma formulação caseira e um produto comercial, comumente utilizados em nosso meio, com o leite da égua, visando avaliar qual seria o mais apropriado. Foram analisadas 11 amostras do substituto caseiro e uma  amostra  do  substituto  comercial.  O  substituto  caseiro  apresentou  maior  teor  de proteína, gordura, EST e cinzas e menor teor de lactose quando comparado com o leite de égua,   indicando   que   sua   formulação   é   inadequada.

Ademais, foram verificadas disparidades significativas entre algumas das amostras do substituto caseiro, indicando que pode haver um comprometimento considerável da qualidade desse produto em função da variação na qualidade dos ingredientes empregados e do responsável pelo preparo.

Já no substituto comercial, as variáveis analisadas aproximaram-se mais dos valores encontrados no leite de égua, e como seu preparo é simples, acredita-se que exista um menor risco de variações decorrentes do preparo, constituindo essa alternativa a melhor opção para o aleitamento artificial de potros órfãos.

Palavras-chave: Potro. Orfão. Aleitamento artificial. Leite de égua. Análise nutricional.

 

ABSTRACT

The rearing of orphaned foals is still a challenge in equine neonatology and one of the main problems facing is the nutrition of these animals. The ideal alternative to meet the needs of the orphaned foal is through the mare’s own milk. However, as this alternative is often not available in clinical routine, it is often necessary to resort to artificially suckled foals, which can be performed by using homemade or commercial substitutes. The present study aimed to compare the homemade substitute and the commercial substitute, commonly used in our country, with the mare’s milk, aiming to evaluate which one would be the most appropriate.

Eleven samples of homemade substitute and one sample of commercial substitute were analyzed. The homemade substitute presented higher protein, fat, EST and ash content and lower lactose content when compared to mare milk, indicating that its formulation is inadequate. In addition, significant disparities were found between some of the homemade substitute samples, indicating that there may be considerable impairment of the quality of this product as a result of the variation in the quality of the ingredients employed and the maker. In the commercial substitute, the analyzed variables were closer to the values found in mare’s milk, and since its preparation is simple, it is believed that there is a lower risk of variations resulting from the preparation, making this alternative the best option artificially suckled orphaned foals.

Keywords: Foals. Orphans. Artificially suckled. Milk of mares. Nutritional analysis.

 

INTRODUÇÃO

Um dos grandes desafios na neonatologia equina é a criação de potros órfãos, pois exige cuidados frequentes e monitoração intensa. O aleitamento natural é a melhor alternativa para a alimentação de potros que foram privados do leite de sua mãe e pode ser realizado por método natural, quando o potro é adotado por outra égua ou por método artificial quando o leite é colhido de outras éguas e fornecido através de mamadeiras ou baldes.

Infelizmente, muitas vezes o aleitamento natural não é viável, seja pela indisponibilidade de éguas para a adoção ou pela dificuldade na obtenção do leite através da ordenha, levando à necessidade da utilização de substitutos do leite, que podem ser comerciais ou elaborados a partir de fórmulas chamadas rotineiramente de “caseiras” (SILVA et al, 2013).

Devido à ampla utilização de substitutos do leite na prática da neonatologia equina, o presente estudo tem por objetivo avaliar uma formulação caseira e um produto comercial, utilizados na rotina para nutrição de potros, através de sua análise nutricional e comparação com as características do leite de égua, além de identificar potenciais limitações no preparo da formulação caseira.

 

REVISÃO DE LITERATURA

A importância da nutrição do potro através da ingestão de nutrientes do colostro e do leite deve-se ao fato de que estes influenciam diretamente no crescimento do mesmo, além de impactarem na saúde animal e em características importantes, como função neurológica e desenvolvimento ósseo.

A alimentação inadequada de éguas, fetos e potros neonatos oferece   riscos   de   doenças   debilitantes,   tanto   em   casos   de   subnutrição   como   na superalimentação. Isto apóia a importância de fornecer uma dieta balanceada à égua e ao potro durante toda a gestação e durante a lactação (BECVAROVA; BUECHNER MAXWELL, 2012).

O alimento mais indicado para o potro é o próprio leite da égua, pois esse possui características específicas, como fatores de crescimento e anticorpos que não estão presentes nos substitutos do leite. Além disso, a composição do leite materno apresenta alterações periódicas, conforme a necessidade e crescimento do potro.

Entretanto, quando potros lactentes são privados do fornecimento de leite por sua mãe devido a fatores como agalactia, rejeição, doença ou óbito da égua, ou ainda quando essa precisa ser separada do potro (KNOTTENBELT et al, 2004), é necessário o fornecimento de outra fonte de alimento, o que exige cuidados, manejo e técnicas adequadas.

Na prática, algumas opções são: adoção por outra égua, fornecimento de leite equino em mamadeira ou balde, fornecimento de substitutos caseiros utilizando como base leite de vaca ou cabra e fornecimento de substitutos comerciais (SILVA et al, 2013). Os substitutos do leite possuem desvantagens, como por exemplo, a falta de fatores de crescimento, menor digestibilidade e possível presença de resíduos de antibióticos.

Além disso, o manejo inadequado pode acarretar em um aumento da carga microbiana do leite. (GRACE et al,1999). É de grande importância ressaltar que o substituto caseiro e comercial não substitui o colostro, que é um suporte nutricional e imunológico para potros neonatais, não sendo o foco deste estudo.

A composição do leite da égua pode ser influenciada por vários fatores, como idade, ordem de parto, peso vivo, dieta, condições ambientais, raças e estágio da lactação. Basicamente, os principais nutrientes do leite da égua são: gordura, carboidratos, proteínas (caseína), lactose e matéria mineral (cálcio e fósforo), sendo, em comparação com o leite de vaca, pobre em energia, gordura e proteína, porém rico em lactose. Em média, uma égua produz entre 2% a 3% do seu peso vivo de leite.

Durante o período de lactação, a produção de leite aumenta até os 60 dias, quando ocorre o pico lactacional. Após esse período, a produção começa a diminuir gradativamente, bem como os teores de alguns de seus componentes, atingindo níveis mínimos de qualidade ao final da lactação (SANTOS et al, 2005). As necessidades nutricionais de potros lactentes são estimadas com base na composição e volume de ingestão do leite da égua (BECVAROVA; BUECHNER-MAXWELL, 2012).

O leite de égua pode ser substituído pelo leite de outros animais. O leite de cabra é reconhecidamente o que mais se assemelha ao leite de égua. Sua utilização constitui uma alternativa racional e prática, uma vez que é utilizado sem preparo especial ou mistura com outros ingredientes, facilitando sua utilização.

Entretanto, como esse tipo de leite não é de consumo disseminado em nosso país e seu custo é elevado, seu emprego no aleitamento artificial de potros é limitado, salvo em condições em que o leite de cabra esteja facilmente disponível em uma propriedade em particular (SILVA et al, 2013).

O leite de vaca, ao contrário do de cabra, é universalmente acessível e muito barato, entretanto sua composição é significativamente diferente quando comparado ao leite de égua, o que contra-indica sua utilização “in natura”. Para contornar esse problema, usualmente o aleitamento de potros é realizado adicionando ao leite de vaca ingredientes em natureza e proporção que visam aproximar sua composição final ao leite de égua (SILVA et al, 2013).

Uma fórmula frequentemente utilizada recomenda o preparo do substituto do leite de égua adicionando 300 ml de água fervida, 30 g de glicose, 5 g de carbonato de cálcio e 1 gema de ovo a 700 ml de leite de vaca (THOMASSIAN, 2005).

Quanto ao substituto comercial sua composição básica é aditivo probiótico, sulfato de zinco, fosfato bicálcico, L-lisina, sacarose, selenito de sódio, subprodutos de indústrias de lacticínios, sulfato de magnésio monohidratado, sulfato de manganês, sulfato ferroso monohidratado. Seu preparo é realizado diluindo 120 gramas do produto em um litro de água a 40ºC (POTROMILK, 2019).

Para avaliar a adequação dos substitutos caseiro e comercial para o aleitamento de potros, foi realizada uma análise nutricional desses produtos e os resultados foram comparados às características do leite de égua disponíveis na literatura. Para o substituto caseiro, foram analisadas  amostras    preparadas    por    indivíduos    diferentes,    visando    identificar    a confiabilidade no preparo da fórmula em condições de rotina.

MATERIAIS E MÉTODOS

Os indivíduos que prepararam as amostras do substituto caseiro utilizadas no estudo foram selecionados de forma a simular a população que usualmente seria solicitada a preparar o substituto  em  condições  de  rotina.  Essa  metodologia  foi  adotada  buscando  identificar variações no processo de produção do substituto caseiro associadas ao indivíduo e á variação dos ingredientes.

Como o produto comercial não é preparado através da mistura de ingredientes,  sendo  que  é de preparo simplificado e supostamente  apresenta  composição homogênea dentro de sua embalagem, os autores não julgaram ser necessária a produção de diferentes repetições do substituto comercial. Sendo assim, foram preparadas 11 amostras do substituto caseiro e uma amostra do substituto comercial.

Das amostras do substituto caseiro, uma foi preparada pelas autoras (amostra AUT) em laboratório, outra foi preparada por um enfermeiro de um Hospital Veterinário (amostra ENF) e as demais foram preparadas por tratadores ou criadores (amostras TC1 a TC9) selecionados no município de Betim/MG.

O preparo das amostras ENF e TC foi realizado na ausência das autoras e sem sua interferência direta. Foi fornecido aos responsáveis pelo preparo das amostras um protocolo por escrito (anexo A) em que constavam as seguintes orientações: 700 ml de leite de vaca (UHT), 300 ml de água fervida, 30 g de açúcar cristal e uma gema de ovo de galinha (THOMASSIAN, 2005). O modo de preparo foi explicado verbalmente, sendo eventuais dúvidas  sanadas    logo    após.   Foi disponibilizado um recipiente limpo para o acondicionamento de um litro do substituto preparado.

A amostra do substituto comercial (SC) foi produzida em laboratório pelas autoras, seguindo estritamente as recomendações do fabricante contidas na bula do produto que orientavam a diluir o conteúdo de 5,0 colheres dosadoras (120 gramas) em 1 litro de água a 40ºC (POTROMILK, 2019). As amostras TC e ENF foram preparadas diretamente no recipiente fornecido e homogeneizadas por agitação, segundo orientação aos responsáveis.

Foi separado o volume de 250 ml de cada amostra que foram acondicionados em outro recipiente limpo, com capacidade para 300 ml. Após a identificação, as amostras foram mantidas em caixas isotérmicas contendo gelo reciclável e transportadas, em um prazo máximo de 2 horas, ao Departamento de Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal (DTIPOA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). As amostras AUT e SC foram preparadas no laboratório do DTIPOA utilizando vidraria e medidores disponibilizados pelo laboratório.

As amostras foram identificadas e armazenadas pela equipe do laboratório. A avaliação foi realizada em triplicata e as variáveis estudadas foram: proteína, gordura, lactose, extrato seco desengordurado (ESD), extrato seco total (EST), caseína e teor de cinzas.

Além disso, foi avaliada a densidade (D g/mL) das amostras. As análises de densidade, gordura, teor de cinzas, extrato seco desengordurado e extrato seco total foram realizadas imediatamente após a chegada das amostras ao laboratório. Os teores de proteína, lactose e caseína foram analisados em até 24 horas após a chegada das amostras ao laboratório.

As técnicas utilizadas foram: técnica absoluta para densidade, butirômetro do leite para gordura, método gravimétrico para extrato seco total e extrato seco desengordurado, método A de Lane-Eynom para lactose e Kjeldahl ou nitrogênio total para proteína e caseína.

Os resultados obtidos das amostras do substituto caseiro e da amostra do substituto comercial (anexo B) foram comparados com os valores de referência obtidos na literatura para essas variáveis no leite de égua da raça Mangalarga Marchador. Calculou-se a média (m), desvio padrão (DP) e o coeficiente de variação (CV) das amostras de substituto caseiro, através da ferramenta Excel.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os dados obtidos através da análise de proteína, gordura, lactose, ESD, EST, caseína e teor de cinzas presentes em 11 amostras de substituto caseiro e uma amostra de substituto comercial (tabela 1) foram comparados aos valores encontrados na literatura sobre a composição do leite de éguas em diferentes estágios de lactação e em diferentes manejos.

 

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Tabela 1. Resultados das análises de 11 amostras de substitutos caseiros e uma amostra de
substituto comercial.

Os valores de média, desvio padrão e coeficiente de variação (tabela 2) foram calculados para observar se houve variação quanto ao preparo do substituto caseiro. O leite de égua sofre variação natural referente ao manejo e dias de lactação, levantando o questionamento se as variações encontradas no preparo do substituto caseiro têm implicação importante.

 

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Tabela 2. Valores da média (m), desvio padrão (DP) e coeficiente de variação (CV) das amostras de substituto caseiro.

 

Como demonstra a tabela 3, os resultados obtidos das amostras do substituto caseiro foram comparados aos valores encontrados por Santos (2005) e Reis (2007), que avaliaram a composição do leite de éguas da raça Mangalarga Marchador, em diferentes estágios de lactação e em diferentes manejos, respectivamente.

 

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Tabela 3. Valores médios encontrados por Santos (2005), Reis (2007) e média dos resultados das amostras do substituto caseiro.

 

Nas amostras do substituto caseiro, os valores de proteína variaram entre 2,61% (TC5) a 3,51% (TC7). O CV foi de 9%, sendo considerado como de baixa dispersão. Segundo Santos (2005), os resultados de proteína encontrados no leite de éguas variaram entre 1,48% a 2,46%. No estudo realizado por Reis (2007), os resultados de proteína encontrados no leite de éguas variaram entre 1,87% a 2,09%, demonstrando que o teor de proteína do substituto caseiro foi maior quando comparado aos teores de proteína no leite de éguas em diferentes fases de lactação e em diferentes manejos.

Os valores de gordura presentes no substituto caseiro variaram entre 0,50% (TC2) a 4,35% (TC6), com média de 2,47%. Apresentando CV de 44,80%, sendo considerado como de alta dispersão. Segundo Santos (2005), os teores de gordura no leite de égua variaram entre 0,86% a 1,70%, com média de 1,09%. No estudo realizado por Reis (2007), os valores de gordura variaram entre 0,54% a 0,69%, com média de 0,63%.

Com isso, podemos observar que o teor de gordura do substituto caseiro foi maior quando comparado aos teores de gordura no leite de éguas em diferentes fases de lactação e em diferentes manejos.

Os resultados de EST presentes no substituto caseiro variaram entre 9,24% (TC2) a 16,14% (TC1). Apresentando CV de 15,10%, sendo considerado como média dispersão. No estudo realizado por Reis (2007), os resultados encontrados para valores de EST variaram entre 10,22% a 10,42%, apresentando uma média de 10,37%. O EST médio do substituto caseiro foi de 11,88%, apresentando um valor maior quando comparado ao leite de éguas em diferentes manejos.

As amostras de substituto caseiro apresentaram valores de ESD que variaram entre 0,39% (TC1) a 13,74% (TC4). Apresentando CV de 37,70%, sendo considerada alta dispersão. A variável não foi encontrada na literatura.Quanto  ao  teor de  lactose,  os  resultados  obtidos  variaram  entre 3,72%  (TC9)  a 5,05% (TC2).

Apresentando  CV  9,70%,  sendo  considerada  baixa  dispersão.  Segundo  Santos (2005),  os  valores  encontrados  para  lactose  variaram  de  6,76%  a  7,10%.  No  estudo realizado por Reis (2007), os resultados encontrados para valores de lactose foram de 6,48% a 6,62%, demonstrando que o teor de lactose do substituto caseiro foi menor quando comparado aos teores de lactose no leite de éguas em diferentes fases de lactação e em diferentes manejos.

Os resultados de caseína presente nos substitutos caseiros variaram entre 0,99% (TC1) a 2,51% (TC4). Apresentando CV 27,10%, sendo considerada média dispersão. A variável não foi encontrada na literatura.

Em relação ao teor de cinzas, os resultados obtidos nas amostras de substituto caseiro variaram entre 0,51% (AUT, TC6 e TC8) a 0,92% (TC4). Apresentando CV de 19,20% sendo considerada média dispersão. O teor de cinzas do substituto caseiro foi maior quando comparado ao leite de égua, considerando que a média de teor de cinzas encontrado no leite de éguas é de 0,55% (REIS, 2006) e a média de teor de cinzas encontrada nas analises do substituto caseiro foi de 0,60%.

As amostras de substituto caseiro apresentaram resultados de densidade que variaram entre 1,028 g/mL (TC8) a 1,065 g/mL (TC1), com média de 1,039 g/mL. Segundo Reis (2006) os valores de densidade de leite de égua varia entre 1,033 g/mL a 1,036 g/mL, com média de 1,035 g/mL, demonstrando que a densidade do substituto caseiro é maior quando comparado a densidade do leite de égua em diferentes manejos.

Algumas variáveis das amostras de substituto caseiro apresentaram grandes variações, como o teor de gordura, ESD e caseína, apresentando CV acima de 20%, valor considerado alto para respostas animais (SAMPAIO, 2002). A variação da gordura pode ser explicada quanto ao tipo de leite utilizado, podendo ter variado entre leite desnatado, semidesnatado e leite de vaca integral.

A variação do ESD pode ser explicada pela utilização de açúcar cristal acima do valor indicado no protocolo, o mesmo pode ter acontecido com a variação de caseína, sendo explicada pela quantidade de água utilizada para diluição do substituto caseiro.

Esses resultados demonstram claramente uma limitação importante na utilização do substituto caseiro que é a variação na qualidade do produto associada ao indivíduo e aos ingredientes utilizados. Ressalte-se que no presente estudo as recomendações foram disponibilizadas por escrito e explicadas oralmente, sendo todas as eventuais dúvidas existentes a respeito do preparo sanadas pelas autoras.

Como foi analisada apenas uma amostra do substituto comercial, não foi possível comparar os dois produtos quanto a variações de qualidade, entretanto, uma vez que o produto comercial é homogêneo e não há mistura de diferentes ingredientes, sendo apenas necessária a adição de água a uma quantidade pré-definida do produto, consideramos ser menos provável a variação de qualidade de amostras de substituto comercial preparadas por diferentes indivíduos.

Em comparação com o leite de égua, o substituto caseiro apresentou maiores níveis de proteína, gordura, EST e cinzas e menor teor de lactose. Isso indica que sua formulação é inadequada, levando a um comprometimento considerável na qualidade desse produto, podendo ser associada à variação na qualidade dos ingredientes empregados e do responsável pelo preparo.

A inclusão das amostras AUT e ENF no presente estudo teve como objetivo servir de referência para a qualidade do substituto caseiro, uma vez que se considerou que o produto foi preparado com estrita observância aos ingredientes e técnicas recomendadas.

Como demonstrado na tabela 4, os resultados para as variáveis estudadas nessas amostras foi semelhante, indicando que o substituto caseiro pode ser preparado de forma razoavelmente uniforme, caso haja estrita atenção ao método de preparo, diluição e padronização dos ingredientes.

 

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Tabela 4. Comparação das amostras AUT e ENF.

 

Como demonstra a tabela 5, os resultados obtidos para as variáveis analisadas no substituto comercial foram próximos ao leite de égua quando comparados aos valores obtidos por Santos (2005), ao estudar a composição do leite de éguas nos 20 primeiros dias de lactação, considerada melhor fase de produção.

 

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Tabela 5. Comparação dos dados obtidos através da análise de substituto comercial (SC)
com dados obtidos por Santos (2005), de éguas nos 20 primeiros dias de lactação (S20)

 

 

 

Tais resultados demonstram que nutricionalmente o substituto comercial está dentro dos padrões exigidos para potros, considerando que sua necessidade nutricional é estimada pela composição do leite da égua.

 

CONCLUSÃO

O substituto caseiro apresenta diferenças significativas em relação ao leite de égua quanto aos níveis de proteína, gordura, EST, cinzas e lactose, além de terem sido observadas evidências de que variações na sua composição podem acontecer quando o produto é preparado por diferentes indivíduos e utilizando ingredientes não padronizados.

Dessa forma, a utilização de substitutos caseiros deve ser limitada apenas a situações emergenciais ou em casos que seja necessária a adoção de improvisos para a nutrição de potros. Estudos visando aprimorar a fórmula do substituto caseiro de forma a ajustar os níveis de nutrientes aos observados no leite de égua poderiam minimizar seus inconvenientes, porém ainda restaria a desvantagem de potenciais variações referentes ao preparo.

Quanto ao substituto comercial, sua composição aproximou-se satisfatoriamente dos níveis de nutrientes do leite de éguas em sua melhor fase de produção. Como o produto é de preparo simples, consideramos que variações na qualidade relacionadas ao preparo do produto sejam menos frequentes e relevantes, constituindo essa alternativa a melhor opção para o aleitamento artificial de potros órfãos.

REFERÊNCIAS

BECVAROVA, I.; BUECHNER-MAXWELL, V. Feeding the foal for immediate and long‐term health. Equine Veterinary Journal, Virginia, v. 44, n. 41, p. 149-156, 2012.

GRACE, N. D. et al. Concentrations of macro- and micro-elements in the Milk of pasture-fed Thoroughbred mares. Australian Veterinary Journal, New Zealand, v. 77, n. 3, p. 177-180, 1999.

KNOTTENBELT, D. C.; HOLDSTOCK, N.; MADIGAN, J. E. Equine neonatology. ed. Saunders,    2004.459-469p.

LEWIS, L. D. Nutrição Clínica Eqüina – Alimentação e Cuidados. 1. ed. São Paulo: Roca, 2000. 430-448p.

POTROMILK: Suplemento Vitamínico Mineral Aminoácido Para Equinos: leite em pó. Responsável técnico Renato Cháboli. São Paulo: Organicca, 2019. Rótulo.

REIS, A. D. P. et al. Composição do leite de éguas da raça Mangalarga Marchador. Rev. Inst. Adolfo Lutz, Goiânia, v. 662, n. 2, p. 130-135, 2007.

REIS, A. D. P. Qualidade físico-química e contagens de células somáticas e bacteriana total no leite de éguas da raça Mangalarga Marchador. 2006. 80f. Dissertação (Mestrado em Ciência Animal) – Universidade Federal De Goiás, Goiânia.

SANTOS, E. M. et al. Lactação em éguas da raça Mangalarga marchador: produção e composição do leite e ganho de peso dos potros lactentes. Revista Brasileira de Zootecnia, Brasilia, v. 34, n. 2, p. 627-634, 2005.

SAMPAIO, I. B. M. Estatística Aplicada à Experimentação Animal. 3. ed. Belo Horizonte: Fundação de Ensino e Pesquisa em Medicina Veterinária e Zootecnia, 2002. p. 17-42.

SILVA, E. S. M. et al. Cuidados com o potro órfão: revisão de literatura. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, Botucatu, v. 11, n. 21, p. 15, 2013.

TATEO, A. et al. Behavior of artificially suckled foals. Journal of Veterinary Behavior, v. 8, n. 3, p. 162-169, 2013

THOMASSIAN, A. Enfermidades dos Cavalos. 4. ed. São Paulo: Varela, 2005. 3-9p.

 

SUBSTITUTO CASEIRO

  • Protocolo de preparo

700 ml de leite de vaca (UHT) 300 ml de água fervida

30 g de açúcar cristal

1 gema de ovo de galinha

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