Info Equestre
Clínica Edição 2° Ano 2017

Acidentes Ofídicos em Equinos

Acidentes Ofídicos em Equinos
v . 2 , n. 31 (2017)

Acidentes Ofídicos em Equinos

Os acidentes ofídicos ou ofidismo são frequentemente relatados nas áreas rurais e responsáveis por mortes de animais de produção, como equídeos e ruminantes, gerando assim, prejuízos econômicos ao produtor. (SILVA & LOFEGO, 2006; SOUSA et al, 2011).

O acidente ofídico é o quadro de envenenamento decorrente da inoculação intramuscular ou subcutânea de toxinas através do aparelho inoculador de serpentes.

O envenenamento ocorre quando a serpente consegue injetar o conteúdo de suas glândulas venenosas, o que significa que nem toda picada leva ao envenenamento (FUNASA, 2001). Em equinos, a região mais afetada é a cabeça (Focinho, região submandibular, língua) devido à posição para se alimentar e curiosidade, porém os membros torácicos, pélvicos, e úbere também são comumente atingidos (BICUDO et al, 2002).

No Brasil, as serpentes peçonhentas causadoras de acidentes ofídicos de maior relevância pertencem aos gêneros Bothrops (Jararacas), Micrurus (Corais), Crotalus (Cascavéis) e Lachesis (Surucucus).
As serpentes do gênero Bothrops (Fig. 1) são os mais relacionados aos acidentes ofídicos no Brasil, sendo responsáveis por cerca de 80 a 90% dos casos em humanos.

Em animais, este gênero também corresponde à grande maioria dos casos de acidentes ofídicos.

Tal fato é facilmente explicado pelo hábito noturno ou crepuscular e pela preferência por ambientes úmidos como matas e áreas cultivadas e locais onde haja facilidade para proliferação de roedores (FUNASA, 2001).

Acidentes Ofídicos em Equinos 1

Acidentes Ofídicos em Equinos
Figura 1 (Jararaca)

Acidentes Ofídicos em Equinos 2

Acidentes Ofídicos em Equinos
Figura 2 ( Cascavel )

Segundo Franco et al (2001), cerca de 10% dos acidentes com serpentes são do gênero Crotalus (Fig. 2).

Estas são encontradas em campos abertos, áreas secas, arenosas e pedregosas e somente atacam quando excitadas. E segundo Boff (1996), a presença destas serpentes é percebida por meio do som característico de guizo ou chocalho proveniente da cauda.

Os acidentes causados por serpentes do gênero Lachesis (Fig. 3) são menos frequentes, bem como os do gênero Micrurus (Fig. 4), por possuírem hábitos subterrâneos, não serem agressivos e terem boca pequena.

Acidentes Ofídicos em Equinos 3

Acidentes Ofídicos em Equinos
Figura 3 (Surucucu)

Acidentes Ofídicos em Equinos 4

Acidentes Ofídicos em Equinos
Imagem 4 ( Coral )

O veneno do gênero Bothrops contém uma complexa combinação de proteínas, carboidratos, lipídios, metais e aminoácidos, que possuem ações proteolítica, coagulante e hemorrágica, resultando em um quadro de inflamação local, necrose e dano ao epitélio vascular.

Há a ação das hemorraginas sobre o endotélio vascular e da ação pró-coagulante do veneno. Desta forma, há destruição tecidual no local da picada acompanhada de processo inflamatório local ou regional acentuado, seguido por formação de vesículas e necrose tecidual (PEREIRA, 2006).

Além disso, pode ocorrer choque, coagulação intravascular disseminada (CID) e insuficiência renal secundária à CID e ao choque (TOKARNIA e PEIXOTO, 2006).

A necrose pode ficar restrita ao tecido cutâneo, podendo se estender para tendões, musculatura e ossos (PEREIRA, 2006). A ação coagulante ocorre por meio da ativação da cascata de coagulação, mediante a conversão do fibrinogênio em fibrina, levando à incoagulabilidade sanguínea.

O gênero Crotalus possui veneno com ação neurotóxica, mais precisamente, em função da crotoxina, que causa efeitos nos sistemas nervosos central e periférico. A crotoxina induz à paralisia motora e respiratória decorrente do bloqueio da liberação de acetilcolina para as transmissões nervosas. Há também a ação miotóxica do veneno crotálico, que causa lesões no tecido muscular esquelético de forma sistêmica. A ação coagulante do veneno crotálico é devido ao consumo dos fatores da coagulação, levando à diminuição dos níveis sanguíneos de fibrinogênio, mas sem redução no número de plaquetas.

Observam-se hemorragias discretas e alterações nos testes de coagulação. O veneno crotálico possui também ação nefrotóxica, levando a lesão tubular direta e lesões indiretas em decorrência da mioglobinúria, podendo ocasionar choque e insuficiência renal aguda.

O veneno dos ofídios do gênero Lachesis possui ações necrosante e coagulante; admite-se ainda uma ação neurotóxica. As serpentes do gênero Micrurus produzem veneno que têm, principalmente, ação neurotóxica.

De acordo com um estudo experimental executado por Sousa et al (2011), a inoculação de veneno de serpentes do gênero Bothrops causa apatia, aumento de volume no local da inoculação seguido por aumento de volume também nas regiões torácica, abdominal, próxima ao prepúcio e úbere (Fig. 5).

Os animais podem apresentar extravasamento de líquido serossanguinolento pela pele íntegra, bem como secreção hemorrágica nas narinas, no local da inoculação e na cavidade oral.

A mucosas oral pode se apresentar congesta, tornando-se pálidas a cianóticas, devido ao quadro de choque, no qual ocorre vasoconstrição periférica como mecanismo compensatório para aumentar a pressão vascular.

Leia: Osteoartrite Em Equinos Atletas.

Os animais apresentam vasos episclerais ingurgitados e motilidade intestinal diminuída, porém, não há alteração nas frequências cardíaca e respiratória. Há a diminuição do tônus lingual, diminuição dos reflexos auricular, do lábio superior, palpebral e de deglutição, seguido de decúbito e morte.

Em casos naturais de envenenamento por serpentes do gênero Crotalus, observa-se os sinais neurotóxicos da crotoxina, como a dificuldade visual devido à paralisia motora do globo ocular, a dificuldade de locomoção e de ficar em estação, a ptose palpebral e paralisia respiratória. Além de outros sinais clínicos, como apatia, dor, edema local em pequena proporção e mioglobinúria (GOMES, 2008; TOKARNIA & PEIXOTO, 2006).

O veneno das serpentes do gênero Lachesis possuem sinais clínicos similares ao do veneno botrópico. Provoca, no local da mordida, dor, edema firme, equimose, rubor e podem ocasionar bolhas hemorrágicas. Há também a hemoglobinúria devido à ação hemolítica do veneno, epistaxe e hemorragia na mucosa oral (FUNASA, 2001; TOKARNIA & PEIXOTO, 2006).

O gênero Micrurus possui peçonha do tipo neurotóxico, com os sintomas parecidos com o do gênero Crotalus, com a diferença de também atacar o aparelho respiratório, causando a parada do diafragma, levando à morte por asfixia (ETTINGER & FELDMAN, 1997).

Por muitas vezes, os proprietários atribuem a causa de morte súbita aos acidentes ofídicos. Apesar serem comuns, os acidentes ofídicos raramente são identificados, pois as serpentes não são capturadas ou encontradas. Apesar disso, o aumento de volume e sangramento no local da picada, bem como os achados clínicos-laboratoriais e dados epidemiológicos, sugerem o diagnóstico de acidente ofídico.

Em contrapartida, o diagnóstico diferencial deve ser realizado, com raiva, clostridioses, intoxicação por plantas, organofosforados, picadas por abelhas e condições alérgicas quando há edema local (Graça et al., 2008).

Texto por: Vitoria Yuki Endo, 10º período do curso de Medicina Veterinária – Universidade Federal Rural de Pernambuco – SEDE.
Edição e Revisão: Deivisson Aguiar, Médico Veterinário CRMV ES 1569.
 
REFERÊNCIAS

BICUDO, P. L. In: Radostits, O. M.; Gay, C. C., Blood, D. C., Hinchcliff, K. W. Clínica Veterinária – Um Tratado de doenças dos bovinos, ovinos, suínos, caprinos e equinos. 9 ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara Koogan. 2002. p. 1543- 1546.

BOFF, G. J., MARQUES, M. G. Animais Peçonhentos. Módulo 7. Curso de especialização por tutoria à distância. Brasilia-DF Associação Brasileira de Educação Agrícola Superior. 67p., 1996.

ETTINGER, S.J.; FELDMAN,E.C. Tratado de Medicina Interna Veterinária. Manole: São Paulo, 4.ed, p. 459-460, 1997.

FUNASA (Ministério da Saúde – Fundação Nacional de Saúde). Manual de Diagnóstico e Tratamento de Acidentes por Animais Peçonhentos. 2 ed. Brasília. p.120, 2001.

FRANCO R. L., ROCHA C. C., JORGE M. T., RIBEIRO L. A. Snakebites in southern Minas Gerais state, Brazil. J Venom Anim Toxins. v.7 n.1 2001. p.56-68.

GOMES, R. C. B. Acidente botrópico, elapídico e crotálico em cães e gatos. 2008. 23f. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Clínica Médica de Pequenos Animais), Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro-RJ.

GRAÇA, F. A. S., PEIXOTO, P. V., COELHO, C. D., CALDAS, S. A., TOKARNIA, C. H.. Aspectos clínicos patológicos e laboratoriais de envenenamento crotálico experimental em bovinos. Pesq. Vet. Bras. 2008. v. 28(6). p. 261-70.

PEREIRA, M. T. Acidente botrópico em cães. 2006. 46f. Tese de Conclusão de Curso (Especialização em Clínica Médica e Cirúrgica em Pequenos Animais) – Universidade Castelo Branco – Campo Grande, MS.

SILVA, E.R.O. & LOFEGO, A.C. Acidentes ofidicos na regiao de São Jose do Rio Preto, SP. Revista Unorp. 2006. v.13, p.127-133.

SOUSA, G. M., TOKARNIA, C. H., BRITO, M. F., REIS, A. B., OLIVEIRA, C. M., FREITAS, N. F., OLIVEIRA, C. H., BARBOSA, J. D.. Aspectos clínicos-patológicos do envenenamento botrópico experimental em equinos. Pesq. Vet. Bras. 2011. v. 31(9). p. 773-780.

TOKARNIA, C. H.; BRITO, M. F.; MALAFAIA, P.; PEIXOTO, P. V. Acidente ofídico em ovino causado por Bothrops jararaca. Pesquisa Veterinária Brasileira, v. 28, n. 12, p. 643-648, 2008.

TOKARNIA, C.H., PEIXOTO, P.V. A importância dos acidentes ofídicos como causa da morte em bovinos no Brasil. Pesquisa Veterinária Brasileira, p. 55-68, abr/jun. 2006.

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