Info Equestre
Clínica Edição 5º Ano 2020

Pós-Parto e sua relação com a Cólica Equina

Pós-Parto e sua relação com a Cólica Equina 1
V.5, Ed.1, N.126(2020)

Pós-parto e sua relação com cólica Equina

Texto por: Júlia Souza Santos Simões- Uniceug-7º Período-Goiânia.

 

Introdução

A Síndrome Cólica ou abdômen agudo é um quadro de dor abdominal, que pode envolver qualquer órgão da cavidade abdominal. É uma das maiores causas de óbito na espécie equina (Thomassian, 1990).

Os distúrbios podem ser gástricos ou intestinais, obstrutivos ou não, com ou sem estrangulamento vascular (White II, 1987). Por possuir peculiaridades anatômicas em seu aparelho digestório, a espécie equina apresenta predisposição a alterações morfofisiológicas graves, responsáveis por sinais de dores abdominais intensas, conhecidas como cólica ou abdômen agudo (PEIRÓ & MENDES, 2004).

As doenças que envolvem o sistema digestório, tais como as cólicas, as diarreias e as enterotoxemias, representam 50% dos problemas médicos que resultam na morte de cavalos adultos (GONÇALVES et al., 2002).

O equino é um animal herbívoro monogástrico, isto é, possui um único estômago e, em condições naturais, se alimenta de forragens. Sua digestão possui particularidades que devem ser observadas para um melhor manejo e aproveitamento dos nutrientes. Para que um animal que apresente quadro clínico de Síndrome Cólica seja abordado de maneira correta é de fundamental importância o conhecimento da anatomia do trato gastrintestinal, do seu funcionamento e das possíveis alterações que possam ocorrer (MOORE et al., 2001).

A cólica, por envolver fatores – de natureza e grandeza – distintos, apresenta patogenia que pode variar desde um distúrbio passageiro a um episódio complexo e de difícil resolução, constituindo-se na doença mais comum e severa (ALVES, 1994).

Peculiaridades anatômicas, tais como a pequena capacidade volumétrica do estômago, quando comparada com outras espécies domésticas, a incapacidade de regurgitar, dada a musculatura muito desenvolvida do cárdia, e a ausência do centro do vômito no sistema nervoso central, bem como o longo mesentério associado ao jejuno, que favorece as torções, além dos segmentos intestinais com diminuição abrupta do diâmetro do lume, como a flexura pélvica e a transição para o cólon menor, que favorecem o acúmulo de alimentos, e ainda de uma mucosa retal frágil, predisposta a rupturas, tudo isso predispõe os equinos a distúrbios gastrentéricos (PEIRÓ & MENDES, 2004).

Entretanto, outros fatores frequentemente associados a alterações no manejo, na atividade física ou na dieta, infestações parasitárias e fatores intrínsecos, tais como sexo, raça e idade, também tornam o equino propenso a episódios de cólica (LACERDA NETO et al., 1989). O equino é muito exigente e sensível às alterações de manejo alimentar e ambiental.

A diminuição ou variação no nível de atividade física, alterações súbitas na dieta, alterações nas condições de estabulação, dieta rica em concentrados, volumoso ou concentrado de má qualidade, consumo excessivamente rápido da ração concentrada, privação de água e o transporte em viagens podem influenciar a ocorrência de Síndrome Cólica (HILLYER et al., 2001).

A qualidade da ração concentrada e a baixa ingestão de volumoso, associadas a fatores como estresse e alterações de comportamento provocadas pelo confinamento, podem influenciar na fisiologia e funcionamento do aparelho digestivo do equino (HILLYER et al., 2001).

E tudo isso pode ocorrer em éguas, principalmente, no pós-parto pois são quando a exigência nutricional delas mais aumenta. Uma boa nutrição garante a saúde da égua recém parida, assim como o desenvolvimento do potro.

Por isso, é importante fornecer uma ração de qualidade para as éguas em lactação. A partir do oitavo mês gestacional, as exigências em proteína bruta, minerais, vitaminas e energia aumentam a cada dia até o quarto mês da lactação, o que faz com que a égua neste período passe a receber uma dieta diferenciada.

Isso acontece porque nos últimos três meses de gestação, o feto chega a ganhar até 500 gramas por dia, o que indica que é a fase de maior crescimento fetal – caso o nível proteico não esteja adequado, o desenvolvimento do potro poderá estar comprometido. Por isso é primordial neste período, que a ração contenha pelo menos 15% de proteína bruta (aminoácidos), pois este é o nutriente mais importante para o crescimento do feto e para a produção de leite.

É muito importante que se tenha os cuidados necessários com a alimentação das éguas em lactação, observando que as necessidades energéticas no início da lactação são superiores às do período de gestação.

Uma égua em lactação produz muito leite, chegam a produzir 22 litros de leite por dia e essa quantidade varia de acordo com a quantidade de alimento que essa égua consome, e nesse período precisa fornecer mais alimento a ela.

A proteína quando é degrada ela produz amina que e convertida em ureia e amônia sendo liberado do corpo do animal, quando tem excesso de proteína 30% além da necessidade dele, a ureia fica circulante e passa a causar intoxicação gerando problemas ao animal um deles é a cólica.

A água também é um fator importante na ocorrência da cólica e está relacionada quanto à quantidade, qualidade e temperatura. O risco de cólica aumenta quando a água é de má qualidade ou é oferecida em quantidades restritas, levando a uma ingestão diária em quantidade além da necessária (SAMAILLE, 2006).

A diminuição da ingestão de água contribui para a incidência de impactações de digesta no intestino grosso e redução do desempenho. A ausência de água nas pastagens e nos estábulos, o consumo do grão de milho inteiro, as quantidades elevadas de concentrados na dieta e as mudanças no tipo de forragem são particularidades notáveis na incidência de cólica (REEVES et al., 1996 & COHEN et al., 1999).

Patofisiologia

As cólicas em equinos apresentam alterações hemodinâmicas que ocorrem em consequência de processos como a distensão do estômago, obstrução de fluxo sanguíneo nos intestinos, distensão ou obstrução do intestino por alimento.

Ao haver uma ou mais instalação desses processos patológicos, pode ocorrer um acúmulo de saliva e secreção gástrica. Ocorrendo ainda um estímulo para a produção de mais secreção e eletrólitos nos segmentos craniais destes órgãos. Estas alterações podem gerar um quadro de desidratação, acompanhada por uma acidose ou alcalose que de penderá do local onde está ocorrendo o processo.

Com a distensão da parede do tubo digestivo ocorre também depressão reflexa marcante das funções vasomotora, cardiovascular e respiratória, agravando ainda mais o quadro clínico do animal.

Este agravamento pode ocorrer pela ação das endotoxinas bacterianas que são liberadas no tubo digestivo, as quais são capazes de produzir respostas vasculares e teciduais por ação direta, principalmente na estimulação da formação de agregados celulares e no complexo coagulação- -fibrinólise, cujo resultado final poderá ser a obstrução de vasos com consequência a redução da oxigenação dos tecidos.

Estes fatores podem levar a uma resposta clínicas que se inicia com dispneia, hipoxemia, hipertensão pulmonar, leucopenia e desencadeamento gradual da dor, levando em seguida diferença na coloração das mucosas e outros tecidos.

Sinais Clínicos

Os eventos fisiopatológicos que decorrem durante um episódio de cólica incluem distensão intestinal, isquemia intestinal, reperfusão dos tecidos, necrose, inflamação, apoptose, e mudanças na flora bacteriana. Estes eventos provocam alterações na motilidade intestinal, nos processos de absorção e secreção de água e eletrólitos, na permeabilidade vascular, ativação de células inflamatórias, e por último, na estrutura dos tecidos.

A cólica tem início com a estimulação dos reflexos nervosos e a formação de mediadores químicos que causam um aumento do débito cardíaco, estase venosa, retenção de fluidos, e alterações na perfusão e oxigenação dos tecidos (White, 2006).

Todos esses sinais vão afetar diretamente o neonato, pois a égua com cólica não conseguirá produzir o leite, ela não está absorvendo nutrientes adequadamente e a dor é intensa, impedindo assim a lactação por um tempo. O estado nutricional está intimamente relacionado a respostas fisiológicas adequadas em todos os organismos vivos.

Sabe-se que quando a nutrição é falha, uma das respostas do organismo é cessar a reprodução (Brinsko et al. 2011). O diagnóstico é pelos sinais clínicos e exame físico do animal, dentre os muitos sinais clínicos de cólica, incluem se o cavalo deitar e levantar repetidas vezes, olhar no flanco e inquietação o animal assume posturas anormais.

No entanto, é difícil o diagnóstico etiológico ou diferencial, pois a dor é sempre intermitente e as crises podem durar mais de 10 minutos, com intervalos de relaxamento.

Diagnóstico

O diagnóstico pode ser realizado por observação visual, o animal apresenta atitudes que indicam dor, deitando e levantando constantemente, se joga no chão e rolar, ter dificuldades para caminhar (LARANJEIRA & ALMEIDA, 2008). Outra maneira de se diagnosticar é pelo exame no reto e observando as fezes do animal (HASE & PATIL, 2013), por avaliação visual minuciosa, por exame físico (exame retal e passagem de tubo nasogástrico), por diagnostico mais avançado (utilizando ultrassom transabdominal e abdominocentese, e análises de sangue).

Após o diagnostico pode ser orientado como proceder, e se ocorrer necessidade intervenção médica, com procedimentos cirúrgicos (COOK & HASSEL, 2014).

Tratamento

O tratamento específico de cada caso de cólica varia e depende da natureza e severidade da lesão. Contudo, existem alguns princípios terapêuticos comuns à maioria das cólicas, como analgesia e sedação, sondagem do animal, reposição de fluidos, correção de desequilíbrios eletrolíticos e ácido-base, além da lubrificação gastrointestinal ou administração de laxantes, e posteriormente o tratamento específico da doença em causa.

O objetivo do tratamento é hidratar ou lubrificar o material suficientemente para permitir que o intestino diminua o tamanho massa e então possa ser removida pela motilidade gastrintestinal normal (WHITE & DABAREINER, 1997).  Não há regras exatas para determinar se o cavalo vai precisar de tratamento cirúrgico, essa decisão irá depender dos sinais clínicos do animal, casos de dor refratárias, e diagnóstico dado ao quadro clínico (KELLER, 2015).

A intervenção cirúrgica é indicada: Quando é possível diagnosticar a causa exata da cólica e a lesão obstrutiva requer correção cirúrgica, como por exemplo o caso das obstruções por estrangulação. Levando sempre em conta que a égua pariu recentemente e está em lactação, evitando danos a ela e ao seu potro.

Prevenção

Alterações na alimentação parecem aumentar significativamente as possibilidades de ter cólica. Cavalos que forem submetidos ao novo tipo de manejo, tal como uma mudança de local, também tem maior probabilidade de serem acometidos por cólica. A quantidade de concentrado a ser oferecida depende muito da qualidade da pastagem e também da ração consumida.

Quanto melhor for a qualidade do volumoso, menor será a quantidade de ração, já que o cavalo é um herbívoro. Algumas ações podem ser benéficas para reduzir o risco de incidência de cólica, como, manter os eqüinos na pastagem o maior tempo possível, pois já foi observado que uma maior ingestão de forragem reduz a incidência de cólica (TINKER et al., 1997; COHEN et al., 1999), manter programas coerentes de tratamentos anti-helmínticos (GONÇALVES et al., 2002) e, se a alimentação do eqüino exigir muito alimento concentrado, redobrar os cuidados e a vigilância (SAMAILLE, 2006), fornecendo menores quantidades de ração concentrada por refeição; mesmo que para isso seja necessário aumentar o número de refeições diárias.

Levando em conta que éguas lactantes terão maio exigência nutricional, sempre oferecer pasto de boa qualidade e água à vontade e limpa. Hillyer et al. (2002) avaliaram tipos de manejo e verificaram que o manejo de cocheira e manejo sanitário influenciam na ocorrência de cólicas.

As diversas situações avaliadas incluíram a logística do ambiente, condições de estabulagem, manejo alimentar, cuidados veterinários e dentários, e transporte (viagens), bem como outras alterações de alimentação e/ou atividade. Segundo Goloubeff (1993), Carter (1987) e Hillyer et al. (2002), a qualidade da ração, a alimentação em refeições intercaladas, a baixa ingestão de volumoso associada a fatores com o stress e as alterações de comportamento provocadas pelo confinamento podem influenciar na fisiologia e funcionamento do aparelho digestivo do equino.

E sempre levar em conta que é uma égua que está produzindo leite para o potro, então, suas exigências nutricionais vão aumentar, mas controlando sua alimentação e a monitorando pode evitar quadros de cólica, pois uma égua doente não consegue amamentar seu potro e gera mais custos para o proprietário.

Referências Bibliográficas

ALVES, G. E. S. Anamnese. In: FÓRUM DE GASTROENTEROLOGIAEQÜINA, 1., 1994, Curitiba. Anais… Curitiba: CBCAV, 1994.

Brinsko, S. P., Blanchad, T. L., Varner, D. D., Scgumacher, J., Love, C. C., Hinrichs, K. & Hartman, D. 2011. Manual of equine reproduction, Mosby Elsevier, USA.

CAZAROTTO, CHRYSTIAN; SCHAFER, ALEKSANDRO. Cólica Equina. Revista SB Rural, 2013. Dísponivel em:<https://www.udesc.br/arquivos/ceo/id_cpmenu/1043/caderno_udesc_109_15198215332448_1043.pdf Acesso em:  12/05/2020.

COHEN, N. D.; Epidemiology of colic. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice, v. 13, n. 2, p. 191-201, 1997.

COOK, V.L.; HASSEL, D.M. Evaluationofthecolic in horses: decision for referral.VeterinaryClinicsof North America: EquinePractice, v.30, n.2, p.383–398, 2014.

COHEN, N. D.; GIBBS, P. G.; WOODS, A. M. Dietary and other management factors associated with colic in horses. Journal of American Veterinary Medical Association. v. 215, n. 1, p. 53-60, 1999.

GONÇALVES, S.; JULLIAND, V.; LEBLOND, A. Riskfactorsassociatedwithcolic in horses. VeterinaryResearch,. v.33, p.641–652, 2002.

GOLOUBEFF B. Abdome Agudo Eqüíno. Varela: São Paulo, p. 173,1993.

HILLYER, M. H. et al. Case control study to identify risk factors por simple colonic obstruction and distention colonic in horses. Equine Veterinary Journal. v. 34, n. 5, p. 455-463, 2002.

HASE, P.B.; PATIL, M. Biochemicalalterations in acutewheatbraninducedspasmodiccolickyhorse. VeterinaryPractitioner, v.14, n.1, p.1, jun. 2013.

LARANJEIRA, P.V.E.H.; ALMEIDA, F.Q.A. Síndrome cólica em equinos: ocorrência e fatores de risco. Revista de Ciências da Vida, RJ, EDUR. v. 28, n. 1, p. 64-78, jan-jun. 2008.

MOORE, J. N.; MELTON, T.; CARTER, W. C.; WRITH, A. L.; SMITH, M. L. A new look at equine gastrointestinal anatomy, function and selected intestinal displacements. In: American Association of Equine Practitioners, 47, Proceedings…AAEP: Genebra, p. 53-60, 2001.

PEIRÓ, J.R.; MENDES, L.C. Semiologia do sistema digestório eqüino. In: FEITOSA, F.L.F. Semiologia veterinária: a arte do diagnóstico. São Paulo: Roca, 2004. p.139-175.

REEVES, M. J.; SALMAN, M. D.; SMITH, G. Risk factors for equine acute abdominal disease (colic): Results from a multi-center case-control study. Preventive Veterinary Medicine, v. 26, p. 285-301, 1996.

SAMAILLE, J. P. Cólicas em eqüinos: o que sabemos e o que não sabemos. Hora Veterinária, v. 25, n. 149, p. 42-44, 2006.

TINKER, M.K.; WHITE, N.A. THATCHER, C.D.; PELZER, K.D.; DAVIS, B.; CARMEL, D.K. Prospectivestudyofequinecolicriskfactors. EquineVeterinaryJournal, v.29, n.6, p.454- 458, 1997.

THOMASSIAN, A. Enfermidades dos Cavalos. 2ªed. São Paulo: Varela, 1990, p.561·.

WHITE, N. A. Epidemiology of Equine Colic. In: Ciclo Internacional de Cólica Eqüina II, UNESP-Jaboticabal, p.1-9, 1995.

WHITE, N. A.; DABARAINER, R. M.. Treatment of impaction colics. Veterinary Clinics of North America: Equine Practice. v. 13, p. 243-259. 1997.

Posts relacionados

Transferência de Imunidade Passiva no Neonato Equina

Redação InfoEquestre

Nebulização em Cavalos Atletas

Redação InfoEquestre

Transfusão de Sangue em Equinos

Redação InfoEquestre

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Aceitar Mais

error: Conteúdo protegido !!