Info Equestre
Clínica Edição 5º Ano 2020

Sinais Clínicos da Cólica Equina

Sinais Clínicos da Cólica Equina 1
V.5, Ed.1, N.102 (2020)

SINAIS CLÍNICOS DA CÓLICA EQUINA
          CLINICAL SIGNS OF EQUINE COLIC

GERLING, M. F. a

a Discente de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS – Brasil.

RESUMO: A síndrome cólica, caracterizada por manifestação de dor abdominal, é uma das principais enfermidades que requerem atendimento veterinário entre os equinos. Os sinais clínicos de cólica são aquelas mudanças no comportamento ou atividade que indicam dor e, embora esses sinais sejam relativamente universais, podem variar conforme cada indivíduo. Além disso, parâmetros como temperatura retal, frequência cardíaca, freqüência respiratória, tempo de prenchimento capilar, avaliação da cor da mucosa e motilidade instetinal também se encontram alterados.

Palavras-chave: cólica, sistema digestório, equino.

ABSTRACT: The equine colic syndrome, characterized by the manifestation of abdominal pain, is one of the main diseases that require veterinary care among horses. Clinical signs of colic are those changes in behavior or activity that indicate pain, and although these signs are relatively universal, they can vary with each individual. In addition, parameters such as rectal temperature, heart rate, respiratory rate, capillary refill time, avaliation of mucosal color and intestinal motility are also altered.

Keywords: colic, digestive system, equine.

1.INTRODUÇÃO

A síndrome cólica, caracterizada por manifestação de dor abdominal, é uma das principais enfermidades que requerem atendimento veterinário entre os equinos (TRAUB-DARGATZ et al., 2001). Essa síndrome cursa com dor abdominal, distúrbios hidroeletrolíticos, ácido-base e disfunção de órgãos vitais como pulmões e coração.

Em equinos com cólica, as alterações ocorridas nas alças intestinais repercutem diretamente na composição dos fluidos orgânicos (VALADÃO et al., 1996), alterando-os na dependência do tempo, localização e gravidade do processo obstrutivo (NAPPERT & JOHNSON, 2001).

Peculiaridades anatômicas específicas da espécie equina, como o pequeno volume do estômago e a incapacidade de regurgitar, contribuem para o desenvolvimento da síndrome cólica. A não regurgitação dos animais dessa espécie, se deve principalmente pela musculatura desenvolvida do cárdia e a ausência do centro do vômito no sistema nervoso central.

Um longo intestino delgado, que predispõe à torções, presença de  porções intestinais com diminuição abrupta do diâmetro do lúmen, como a flexura pélvica e a transição para o cólon menor, que favorecem o acúmulo de alimentos, e ainda de uma mucosa retal frágil, predisposta a rupturas, são alguns dos fatores que levam os equinos há terem inúmeros problemas gastrointestinais.

Além disso, são animais muito sensíveis com alterações no manejo alimentar e ambiental. A diminuição ou variação no nível de atividade física, mudanças súbitas na dieta, condições de estabulação, dieta excessiva em concentrados, volumoso ou concentrado de má qualidade, consumo rápido da ração, ingestão de pouca quantidade de água e o transporte em viagens podem influenciar na ocorrência de síndrome cólica (HILLYER et al., 2001).

2.SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos de cólica são aquelas mudanças no comportamento ou atividade que indicam dor abdominal. Embora esses sinais sejam relativamente universais, podem variar conforme cada indivíduo. Cavalos com dor abdominal expressam uma variedade de sinais, incluindo cavar, olhar em direção ao flanco, chutar o abdômen com os pés traseiros, esticar-se repetidamente como se fosse urinar, deitar em decúbito esternal ou lateral por períodos prolongados de tempo, rolar no chão, posição de cão sentado, dificuldade em defecar, inapetência (Figura 1).

Sinais Clínicos da Cólica Equina 11
Figura 1 – Sinais clínicos de cólica. Adaptado de The Equine Acute Abdomen, 2017.

A dor é classificada em cinco categorias com base na gravidade: (1) nenhuma dor, (2) dor leve, (3) dor moderada, (4) dor intensa e (5) depressão. Dor leve é ​​evidenciada por cavar ocasionalmente, olhar para o flanco e deitar-se por mais tempo do que o normal (White, 1990). Cavalos com esse tipo de dor geralmente respondem a analgésicos por 8 a 12h (Ragle, 1999) e costumam ser facilmente distraídos da dor com estímulos externos, como caminhar. Cavalos com dor leve podem não mostrar desconforto, a menos que deixados sozinhos em um piquete ou em um estábulo.

A dor moderada manifesta-se como cavar, chutar o abdômen, deitar-se, rolar, virar a cabeça para o flanco e adotar posição de cão sentnado (White, 1990), e pode ser controlada com analgésicos por 2 a 4h ( Ragle, 1999). É mais difícil distrair os cavalos com dor moderada e frequentemente é necessária analgesia. A dor intensa inclui sudorese, queda no chão, rolagem violenta, movimento contínuo ou qualquer um dos sinais mencionados anteriormente (White, 1990). Cavalos com dor intensa costumam ser muito difíceis de controlar e a dor pode responder apenas a analgésicos por alguns minutos ou simplesmente não responder.

Essa classificação é apenas um guia para medir a gravidade da dor. Os sinais apresentados por cada indivíduo não se dividem ordenadamente em cada nível, podendo haver sinais de diferentes categorias, ou até sinais além dos citados.

Conforme o avanço do caso de cólica ou dependendo da causa, os cavalos podem ficar mais deprimidos do que dolorosos Os sinais da depressão são quietude do animal, falta de interesse por comida e água, cabeça pendurada baixa e relutânca em se mover.

Acredita-se que a depressão ocorra na medida em que o fluxo sanguíneo diminui para o intestino e leva à morte segmentar do tecido intestinal, endotoxemia, desidratação e outra má perfusão sanguínea dos tecidos do corpo que pode estar associada ao fornecimento insuficiente de oxigênio para os mesmos tecidos. Cavalos em estado de choque geralmente ficam deprimidos devido à acidose.

A ruptura do estômago ou intestino pode causar uma mudança drástica de dor intensa para depressão. Colites e peritonites causam maior depressão do que dor abdominal, sem estarem associadas à morte do intestino.

A aparência física do cavalo pode fornecer informações sobre a gravidade da situação. Durante crises violentas de dor, os cavalos podem machucar a si mesmos, ocasionando traumas, contusões, abrasões e inchaço ao redor dos olhos, cabeça e membros.

A transpiração também pode ser um sinal de dor intensa devido à estimulação do sistema nervoso simpático ou a choque endotóxico (White, 1990). Uma aparência inchada indica distensão acentuada do ceco, cólon maior ou possivelmente todo o intestino delgado.  A distensão ou deslocamento cecal pode resultar em um lado direito inchado, enquanto um deslocamento dorsal esquerdo do cólon maior pode resultar em um lado esquerdo inchado.

3.PARÂMETROS GERAIS

Além dos sinais físicos demonstrados pelo cavalo de dor abdominal, outros parâmetros clínicos também podem estar alterados. Eles avaliam o estado de saúde geral do animal, ou seja, o quão estável o animal está no momento do exame, e ajudam a determinar a severidade da cólica. Os parâmetros a serem avaliados incluem temperatura retal, freqüência cardíaca, freqüência respiratória, tempo de prenchimento capilar, avaliação da cor da mucosa e motilidade intestinal.

A temperatura retal geralmente permanece normal em cavalos adultos (37,2 a 38,3°C)  com cólicas, podendo estar levemente elevada ( <38,6°C) em cavalos que sofreram esforço físico, como rolar ou andar de um lado para o outro devido à dor.

No entanto, temperaturas acima de 39°C sugerem uma condição inflamatória e/ou infecciosa que pode estar diretamente associada ou ser a causa de cólica. As causas de cólica comumente associadas à febre incluem peritonite, colite e ruptura intestinal. As baixas temperaturas corporais são frequentemente observadas com graves distúrbios circulatórios e choque.

A frequência cardíaca é um indicador da gravidade da doença e do grau de choque circulatório (Morton & Blickslager, 2002). A frequência cardíaca depende do nível de dor e resposta simpática, do volume vascular e do status cardiovascular.

O status cardiovascular pode ser afetado por choque hipovolêmico ou outras condições que causam distensão intestinal e diminuição do retorno venoso. Uma freqüência cardíaca muito alta deve alertar o veterinário para um problema sério, como um estômago muito distendido, próximo à ruptura ou uma distensão intestinal grave, que impede o retorno venoso do coração. As frequências cardíacas normalmente encontradas para diferentes categorias de doenças são: (1) doenças obstrutivas simples, 40-70bpm; (2) lesões estrangulatórias precoces, 50-90bpm; (3) lesões estrangulatórias tardias, 70–120bpm; (4) doenças inflamatórias, 40-100bpm (White, 1990). Como a freqüência cardíaca é influenciada pelo nível de dor e excitação, a taquicardia não pode ser considerada o único indicador de gravidade da doença (Orsini et al., 1988; White et al., 2005).

A qualidade do pulso pode ser avaliada palpando a artéria facial. Um pulso fraco pode indicar queda da pressão arterial secundária à choque hipovolêmico. Uma freqüência cardíaca ou pulso irregular pode indicar uma disritmia causada por um desequilíbrio eletrolítico, como baixas concentrações de cálcio ionizado ou magnésio.

A frequência respiratória normal deve ser de 8 a 16 respirações por minuto e é encontrada consistentemente aumentada em cavalos com dor abdominal. A cianose com uma frequência respiratória rápida também pode ocorrer quando há pressão excessiva no diafragma devido à grande distensão do cólon ou do ceco, ou quando há endotoxemia com alterações pulmonares secundárias (White, 1990).

A acidose metabólica, que pode acompanhar o intestino desvitalizado, a endotoxemia e a perfusão tecidual reduzida, pode resultar em uma alta taxa respiratória na tentativa de remover o excesso de CO2 para compensar essa acidose metabólica.

A cor e a umidade das mucosas orais são usadas para avaliar a perfusão e o status de hidratação do cavalo. A conjuntiva também pode ser usada, mas pode estar inflamada como resultado de trauma recente, como rolamento, transporte ou decúbito (White, 1990).

As membranas mucosas são geralmente rosa pálidas. A cor das membranas mucosas em cavalos desidratados pode variar de pálido a vermelho tijolo se houver congestão venosa. Caso o cavalo esteja endotoxêmico, as membranas podem ter uma aparência congesta, com uma linha “tóxica” em azul escuro ao redor dos dentes (Mackay, 1996). A taquicardia com mucosas pálidas pode indicar perda sanguínea interna, como nos casos de hemoperitôneo.

O tempo de preenchimento capilar também é um bom indicador da perfusão tecidual e da função cardiovascular. Esse paramêtro é determinado ao pressionar as membranas mucosas acima dos dentes incisivos para causar um tempo de branqueamento que pode ser de 2 a 3 segundos. Com  uma desidratação grave, a mucosa oral adquire aparência seca e o tempo de preenchimento capilar geralmente excede 4 segundos.

Os ruídos abdominais (borborigmos) são avaliados quanto à frequência, duração, intensidade, e localização, sendo de extrema importância para o auxílio no diagnóstico, podendo estabelecer um prognóstico (ASSUMPÇÃO, 2008). A motilidade intestinal, auscultada nas regiões paralombar inferior e superior esquerda e direita, pode estar aumentada ou diminuida. Na maioria dos casos de dor abdominal, esses sons estão diminuídos, indicando uma hipomotilidade.

Nos casos mais graves, como estrangulamento de uma região do instetino, eles estão ausentes. Na cólica espasmódica, em que há um aumento de motilidade, ausculta-se um excesso de borborígmos. Na fossa paralombar superior direita, localiza-se o ceco, sendo possível auscultar as descargas cecais. Os valores normais são de 2 a 3 descargas em 5 minutos ou 1 descarga em 3 minutos.

4.TRATAMENTO

O tratamento específico de cada caso de cólica varia e depende da natureza e severidade da lesão. Contudo, existem alguns princípios terapêuticos comuns à maioria das cólicas, que envolvem a estabilização do animal, como analgesia e sedação, reposição de fluidos, correção de desequilíbrios eletrolíticos e ácido-base, e posteriormente o tratamento específico da doença em causa, podendo a intervenção cirúrgica ser indicada.

5.CONCLUSÃO

A cólica é a patologia responsável pelo maior numero de mortes em equinos. Apesar de facilmente diagnosticada, apresenta uma diversidade de manifestações, que podem variar muito de indivíduo para outro. Compreender bem esses sinais, ajuda o médico veterinário a determinar a origem do problema e assim, poder determinar a correta abordagem, pois, quando se trata de cólica, quanto mais rápida a ação e o inicio do tratamento, melhor o prognóstico e chance de sucesso.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLIKSLAGER, Anthony T; WHITE II, Nathaniel A,; MOORE, James N.; MAIR, Tim S. The Equine Acute Abdomen. Wiley-Blackwell. 2017, 3 ed

BENTZ, Brandford G. Undesrstanding Equine Colic. Blood-Horse Publications, 1 ed, USA, 2007

MARIANO, R. S. G,; PACHECO, A. M.; HAMZÉ, A. L.; ABILIO, A. F.; AVANZA, M. F. B. Síndrome Cólica Equina – Revisão de Literatura. Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, Ano IX, nº16, 2011.

WHITE, Nathaniel A.; EDWARDS, Barrie. Handbook of Equine Colic. Butterworth Heinemann. 1999, 1d, Londres.

KNOTTENBELT, Derek C.Knottenbelt and Pascoe’s Color Atlas of Diseases and Disorders of the Horse. Sauders Elsevier, 2014. 2 ed.

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