Info Equestre
Edição 5º Ano 2020 Notícias

Melhore a sua Visualização da Claudicação em Equinos

Melhore a sua Visualização da Claudicação em Equinos 1
V.5, Ed.1, N.196(2020)

MELHORE A SUA VISUALIZAÇÃO DA CLAUDICAÇÃO EM EQUINOS

(IMPROVE YOUR EYE FOR LAMENESS IN HORSES)
Traduzido e adaptado por Letícia Cristina Model (MODEL, L. C.a)
a Estudante do sétimo período de Medicina Veterinária pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, Paraná.

Endereços para contato: [email protected] / [email protected]

RESUMO

A claudicação é um sinal de que há alguma alteração estrutural ou funcional em um ou mais membros de um equino. O diagnóstico requer importante conhecimento acerca da anatomia do sistema locomotor do cavalo, assim como da fisiologia da movimentação.

Um exame de claudicação deve seguir etapas para que o diagnóstico seja o mais preciso possível, passando pela anamnese; exame visual em repouso; exame visual em movimento; palpação e manipulação das estruturas anatômicas que podem estar envolvidas, iniciando da região mais distal do membro, começando pelo casco, até a região mais proximal; testes de flexão e bloqueios anestésicos e exames de imagem, quando necessários.

Palavras- chave: cavalo, claudicação, membros torácicos, membros pélvicos.

ABSTRACT

Lameness is a sign that there is some structural or functional chance in one or more limbs of the horse. The diagnosis requires important knowledge of the anatomy of the horse´s locomotor system, as well as the physioly of movement. A lameness examination should follow the steps for the diagnosis to be as accurate as possible, including anamnesis; visual examination at rest; visual examination in movement; palpation and manipulation of the anatomical structures that may be involved, starting from the most distal region of the limb (hoof), to the most proximal region; flexion tests; anesthetic blocks and imaging exams, when necessary.

Key-words: horse, lameness, toracic limbs, pelvic limbs.

  1. INTRODUÇÃO

A claudicação, também conhecida como manqueira, indica a presença de alguma alteração estrutural ou funcional em um ou mais membros do cavalo. Diversas causas podem estar relacionadas a um animal apresentando esse sinal: trauma, anomalias congênitas ou adquiridas, infecções, distúrbios metabólicos, problemas circulatórios ou do sistema nervoso etc. A claudicação pode estar ocorrendo em função de dor, mas também existem as claudicações mecânicas, as quais não apresentam dor correlacionada ao andar (STASHAK, 2011).

Segundo Stashak (2011), a grande maioria das claudicações são diagnosticadas nos membros torácicos, sendo 95% localizadas no carpo ou abaixo dele. Isso ocorre porque 60 a 65% do peso do cavalo é suportado pelos membros torácicos, fazendo com que estejam mais sujeitos às lesões. Nos membros pélvicos, 80% das claudicações ocorrem por alterações no jarrete ou na soldra (STASHAK, 2011).

A identificação de qual membro está claudicando às vezes pode ser difícil. Deve-se confiar no diagnóstico visual, observando a marcha dos cavalos, embora a ressonância magnética e a radiologia possam auxiliar, e muito, no diagnóstico. É sempre importante levar em consideração a opinião dos proprietários e dos treinadores do cavalo que está sendo avaliado, já que eles sabem qual é o jeito “normal” de seu cavalo andar (SEABAUCH, 2020).

  1. TERMOS FUNDAMENTAIS E TÉCNICAS

Dollar (O´Connor, 1952) classificou as claudicações em quatro diferentes tipos. A claudicação do membro de apoio aparece quando o cavalo suporta o peso do seu corpo sobre o membro lesionado, colocando-o no solo (lesões em ossos, articulações, ligamentos colaterais, nervos motores e na pata).

A claudicação vista quando o membro está em movimento é conhecida como claudicação do membro em suspensão (lesões em cápsulas articulares, músculos, tendões ou bainhas tendíneas).

Em casos de claudicação mista, a manqueira é evidente com o membro em movimento ou apoiado no solo. Por último, quando ocorre o aumento do estresse em um membro anteriormente saudável, visando a proteção de um membro que está causando dor, classifica-se como claudicação complementar, a qual também pode ocorrer no mesmo membro já lesionado, quando uma nova lesão surge (claudicação adicional), promovendo estresse em estruturas que ainda estavam normais nesse membro (STASHAK, 2011).

Stashak (2011) classifica as claudicações de 1 a 4, mas segundo a American Association of Equine Practitioners (AAEP) classifica-se a claudicação de 0 a 5, sendo (SEABAUCH, 2020):

0: claudicação não perceptível em qualquer circunstância.

1: claudicação difícil de ser observada, não estando muito aparente em todas as circunstâncias (na areia, círculo, piso inclinado, piso duro)

2: claudicação difícil de ser vista ao caminhar ou ao trote em linha reta, mas é vista quando o cavalo carrega peso, é vista no círculo, em piso inclinado ou em piso duro.

3: claudicação vista ao trote em todas as circunstâncias.

4: Claudicação vista facilmente ao passo.

5: Claudicação faz com que o animal não se movimente ou não apoie (ou muito pouco) o membro afetado no solo em movimento ou em repouso.

As claudicações também podem ser divididas em causa, tipo e localização. Em relação às causas, geralmente elas são causadas por dor em um ou mais membros do cavalo, embora restrições mecânicas e lesões em nervos periféricos, veias ou músculos também podem fazer com que o equino demonstre esse sinal. No que diz respeito ao tipo de claudicação, ela se refere à fase do passo em que ocorre essa alteração, assim como já classificado por O´Connor em 1952.

Claudicações de membro de suporte (claudicação de apoio) ocorrem pela dor que o cavalo sente durante o apoio desse membro no solo, já a claudicação de oscilação do membro é vista quando o membro não está apoiado no solo. É comum haver cavalos com claudicação de apoio e de oscilação, sendo considerada uma claudicação mista. Por último, as claudicações podem ser de membros torácicos, de membros pélvicos, bilaterais ou unilaterais (BUCHNER, 2013).

Melhore a sua Visualização da Claudicação em Equinos 11
Figura 1. Classificação da claudicação (BUCHNER, 2013).
  1. AVALIAÇÃO BÁSICA

A anamnese é essencial para começar o diagnóstico no exame de claudicação, buscando entender o histórico do animal. Deve-se obter informações relevantes como: o tempo que o cavalo está claudicando; se o cavalo ficou em repouso ou foi exercitado no período em que claudicava; episódios que podem ter causado a manqueira; se o exercício melhora a claudicação; se o cavalo tropeça; se foi feito algum tipo de tratamento com ou sem melhora e quando esse animal foi ferrado pela última vez (STASHAK, 2011).

É importante observar o cavalo em repouso de todos os ângulos, procurando por assimetrias, já que massas musculares, conformação de membro e tamanho de articulações alterados podem indicar que o cavalo está claudicando.

É relevante avaliar os cascos, buscando a presença ou não de desgaste anormal, rachaduras ou contração dos bulbos dos talões. Inchaços devem ser procurados em articulações e tendões, assim como edemas e atrofias nos músculos dos membros, costas e da região lombar.

Em seguida, é importante avaliar o cavalo ao passo e ao trote, sendo esse último mais relevante, já que os cavalos podem “esconder” a claudicação quando estão caminhando pelo fato de não haver grandes choques do membro com o solo (STASHAK, 2011; SEABAUCH, 2020).

As fases do passo devem ser observadas, já que um encurtamento da fase cranial (à frente da pegada do membro oposto) ou da fase caudal (atrás da pegada do membro oposto) do passo podem ocorrer em casos de claudicação.

O arco do movimento da pata em suspensão pode se alterar em um cavalo que apresenta dor em um dos membros. Na maioria dos casos, cavalos com diminuição na altura do arco da pata em suspensão também apresentarão mudanças nas fases do passo.

O percurso da pata em suspensão deve ser analisado e ele pode se desviar para dentro, podendo provocar traumas no membro oposto, ou para fora (remada).

É interessante verificar como o casco do cavalo toca o solo, já que o animal sempre buscará apoiar o peso no lado oposto ao qual ele sente dor. Ângulos de flexão das articulações devem ser vistos de perfil, comparando os graus estimados de flexão entre os membros.

A simetria e a duração da elevação da garupa devem ser observadas para identificação de alterações em membros pélvicos (STASHAK, 2011).

Com a ajuda de um auxiliar que deverá guiar o animal, precisa-se analisar o cavalo trotando de frente, vindo na direção do observador, prestando atenção especial aos movimentos de cabeça. Em seguida, é necessário prestar mais atenção à garupa do animal, quando ele estiver trotando em linha se distanciando do observador médico veterinário. É relevante, também, se posicionar ao lado do cavalo e o observar passar trotando (SEABAUCH, 2020).

Em alguns casos, fica mais fácil identificar qual ou quais os membros acometidos pela claudicação trotando o cavalo em círculos ou com o cavalo sendo montado por seu treinador ou proprietário, lembrando que isso pode agravar o quadro (SEABAUCH, 2020).

  1. CLAUDICAÇÃO DOS MEMBROS TORÁCICOS

O indicador mais fácil de claudicação em membros torácicos é a movimentação de cabeça, em inglês conhecido como head bob. Em cavalos normais, a cabeça se eleva sutilmente na fase de balanço do membro e abaixa levemente quando esse mesmo membro toca o solo. Em cavalos sadios, essa movimentação é simétrica para ambos os lados (SEABAUCH, 2020).

Já em cavalos que estão claudicando de um membro torácico, a cabeça se elevará quando o membro dolorido encostar no solo, ou um pouco antes de isso acontecer, já que o animal busca aliviar o peso que esse membro sustentará, poupando-o do peso da sua cabeça e do seu pescoço.

Em seguida, quando o membro sadio encosta no solo, pode-se observar um movimento da cabeça exagerado para baixo, já que esse outro membro consegue sustentar mais o peso.

Quando submetidos ao trote em círculo, como os membros internos recebem maior quantidade de peso, a claudicação se torna mais evidente (tanto em membros torácicos como em membros pélvicos), caso um desses dois membros internos esteja lesionado.

Portanto, caso o membro torácico direito seja o que está provocando a claudicação, ela se tornará mais evidente em um trote em círculo para direita; caso o membro afetado seja o membro torácico esquerdo, isso será mais facilmente observado em um trote em círculo para esquerda (SEABAUCH, 2020).

  1. CLAUDICAÇÃO DOS MEMBROS PÉLVICOS

A claudicação nos membros pélvicos é um pouco mais difícil de ser diagnosticada. Deve-se observar o ponto mais alto da garupa quando o cavalo estiver trotando para longe do observador. A movimentação total de garupa deve ser similar para os dois lados para cada passo, ou seja, se em um dos lados há uma maior movimentação total do que no outro lado, suspeita-se de claudicação desse membro pélvico. Diferentemente do que ocorre nos membros torácicos, a movimentação dos membros pélvicos não está associada ao suporte de peso.

Quando o membro pélvico acometido não estiver apoiando no solo (fase de balanço), o outro membro estará suportando mais peso e, portanto, essa garupa estará mais baixa. Quando a perna acometida apoiar no solo, o animal sente dor e não se sente confortável em suportar peso, fazendo com que se perceba uma elevação da garupa. Além disso, para recuperar o atraso, a perna acometida pode se movimentar mais rapidamente durante a fase de balanço (SEABAUCH, 2020). Segundo Stashak (2011), em claudicações moderadas e graves, a cabeça e o pescoço se levantam quando o membro pélvico não afetado toca o solo e abaixam quando o membro lesionado é apoiado no solo, o que reduz o peso suportado por esse membro.

Ao observar o cavalo de lado, o membro pélvico acometido toca o solo rapidamente se comparado com a perna saudável (SEABAUCH, 2020).

  1. LOCALIZAÇÃO DO PROBLEMA

Ao identificar o membro que está causando a claudicação, deve-se começar a procurar lesões, áreas de calor ou inchaço/edema, abscessos etc. A palpação e manipulação dos membros dos cavalos são essenciais para encontrar o problema, começando da região mais distal do membro para a mais proximal. Deve-se palpar o casco (pinça de casco), as articulações, os ligamentos, tendões e músculos procurando sinais de dor ou de alteração.

Testes de flexão devem ser realizados em articulações como a do boleto (metacarpofalangiana), as interfalangianas, a do carpo, a do ombro e a do jarrete (tarso), por 1 minuto, com intuito de evidenciar a claudicação caso esteja presente (STASHAK, 2011; SEABAUCH, 2020).

Caso nenhuma lesão externa seja verificada, talvez o problema se encontre em alguma articulação, sendo nos membros torácicos ou nos membros pélvicos. Bloqueios anestésicos são importantes para a localização da articulação que está ocasionando o problema.

Conforme o médico veterinário vai subindo no membro pélvico com os bloqueios anestésicos e não obtém respostas positivas, podem ser realizados exames de imagem que, caso também não tragam respostas que identifiquem alguma lesão da articulação femorotibiopatelar para baixo, a lesão pode estar na pelve, na articulação sacroilíaca ou na coluna vertebral do equino, já que, assim como a claudicação causa dor nas costas do cavalo, a dor nas costas pode promover a claudicação (SEABAUCH, 2020).

  1. CONCLUSÕES

Muito estudo e muita prática são necessários para que um exame de claudicação eficaz e que conquiste um resultado certeiro seja realizado. É importante que nenhuma das etapas do exame seja esquecida, já que elas se complementam, iniciando pela anamnese, na qual o médico veterinário obtém todo o histórico do equino; passando pelo exame visual (repouso e ao trote); seguindo para a palpação e manipulação do casco, de articulações, ligamentos, tendões e músculos, buscando alterações como edema, dor, aumento de temperatura e/ou volume, fibroses; testes de flexão, os quais acentuam a claudicação; bloqueios anestésicos e exames de imagem.

 

 

REFERÊNCIAS

STASHAK, Ted S. Diagnóstico da Claudicação. In STASHAK, Ted S. Claudicação em Eqüinos Segundo Adams. 5 ed. Editora Roca, 2011. p. 101 – 159.

BUCHNER, H. H. F. Gait adaptation in lameness. In BACK, Willem; CLAYTON, Hilary M. Equine Locomotion. 2 ed. China: SAUNDERS ELSEVIER, 2013. p. 175 – 197.

SEABAUCH, Katie. Improve your eye for lameness. Equus, 2020. Disponível em: <https://equusmagazine.com/lameness/improve-eye-lameness-30825>. Acesso em: 29 ago. 2020.

 

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