Info Equestre
Edição 5º Ano 2020 Clínica

African Horse Sickness (AHS) – Peste Equina Africana

African Horse Sickness (AHS) - Peste Equina Africana 1
V.5, Ed.1, N.81(2020)

AFRICAN HORSE SICKNESS (AHS) 

PESTE EQUINA AFRICANA

ALVES JUNIOR, C. D. B.a

a Acadêmico da Faculdade de Veterinária (FAVET) da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Fortaleza.

 

RESUMO

Também chamada de peste equina africana, é uma doença viral que acomete cavalos, burros e zebras, acarretando a morte de mais de 70% dos animais infectados, sendo assim um dos patógenos mais letais para os equinos. O vírus normalmente é transmitido por mosquitos do gênero Culicoides que vivem em climas quentes e tropicais, tendo um grande histórico de infecções ao longo dos anos na África e Europa. Atualmente, na Tailândia o vírus vem matando muitos animais por problemas cardíacos e pulmonares, contudo seu vetor possui predileção por regiões quentes e úmidos, características presentes nos climas Brasileiros o que leva a importância da informação aos Médicos Veterinários e aos produtores, a fim de evitar a infecção de animais no Brasil.

 

Palavras-chaves: Infecção. Equino. Infectocontagiosa.

 

ABSTRACT

Also called African horse sickness, it is a viral disease that affects horses, donkeys and zebras, causing the death of more than 70% of infected animals, thus being one of the most lethal pathogens for horses. The virus is usually transmitted by mosquitoes of the genus Culicoides that live in hot and tropical climates, having a long history of infections over the years in Africa and Europe. Currently, in Thailand the virus has been killing many animals due to heart and lung problems, however its vector has a predilection for hot and humid regions, characteristics present in Brazilian climates, which brings the importance of information to Veterinarians and producers, in order to avoid infection of animals in Brazil.

Keywords: Infection. Equine. Infectocontagious.

 

 

  1. INTRODUÇÃO:

O vírus da doença do cavalo africano (AHSV) é limitado a geográficas onde o vetor Culicoides imicola está presente, e sua propagação depende da ocorrência de condições climáticas favoráveis e da atividade do vetor. O AHSV é endêmico na África Subsaariana, mas periodicamente aparecem relatos além desta área, onde tem causado grandes epizootias que se estendiam até Paquistão e Índia no leste, e até o Marrocos, Espanha e Portugal no oeste (CAPELA et al, 2003; MELLOR et al, 2000; MIRANDA et al, 2003; SARTO et al, 2003). Mais de 300 000 equídeos morreram durante a grande epizootia de 1959-1961 em o Oriente Médio e o Sudoeste da Ásia (HOLMES et al, 1995).

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Figura 1 – Vetor da peste equina africana – Culicoides imicola.
                                      Fonte: Sanidad Animal (2020).

 

A peste equina africana resulta da infecção pelo vírus da peste equina africana (VPEA), um membro do gênero Orbivirus, da família Reoviridae (CFSPH, 2015). Existem 9 sorotipos antigenicamente distintos do vírus AHS (AHSV) identificados pela neutralização do vírus, mas alguns reação cruzada foi observada entre 1 e 2, 3 e 7, 5 e 8 e 6 e 9. Nenhuma reação cruzada com outros orbivírus conhecidos foram observados (OIE, 2013).

Equídeos, incluindo os cavalos, burros, mulas e zebras são os principais hospedeiros do VPEA; no entanto, este vírus também é conhecido por afetar cães. Entre os equídeos, as infecções mais graves ocorrem em cavalos e mulas, os quais são apontados como hospedeiros acidentais. As zebras, frequentemente assintomáticas, são consideradas reservatórios naturais na maioria das regiões da África. A Peste Equina Africana não é uma enfermidade zoonótica (CFSPH, 2015).

  1. EPIDEMIOLOGIA

A peste equina africana é endêmica na África subsaariana. O sorotipo 9 é difundido na região, enquanto os sorotipos 1 a 8 ocorrem em áreas limitadas. A maior diversidade de vírus tem sido relatada no sul e leste da África. Alguns sorotipos recentemente causaram surtos em países onde não haviam sido encontrados anteriormente. Surtos de Peste Equina Africana ocorreram fora da África no Oriente Médio, na região do Mediterrâneo da Europa e partes da Ásia (no subcontinente Indiano). Embora todos os surtos, até o momento, tenham sido erradicados, o VPEA conseguiu persistir durante anos em algumas áreas (CFSPH, 2015).

A primeira referência a uma epidemia de peste equina data de 1932 no Iêmen. No entanto, o vírus provavelmente se originou na África. Não há referências à doença na África Austral até 1657, com o primeiro grande surto em 1719 com mais de 1.700 animais mortos. Até o século XXI, novos surtos da doença foram registrados, destacando o surto que ocorreu na África do Sul (1854-1855), no qual morreram 70.000 cavalos. No entanto, durante o século passado, a frequência, extensão e gravidade dos surtos nessa área diminuíram significativamente, coincidindo com uma diminuição nas populações de cavalos e zebras e o desenvolvimento de vacinas contra a doença (Sanidad Animal, 2020).

O surto na Tailândia pode ter começado no final de fevereiro, com a inexplicável morte de um cavalo de corrida no distrito de Pak Chong, perto de Bangcoc. No final de março, depois das chuvas que podem ter ajudado as populações de mosquitos Culicoides a florescer, mais de 40 cavalos, repentinamente, morreram (Caballus, 2020).

A 10 de abril, na última atualização oficial, o DDP terá comunicado 192 mortes de cavalos em 37 explorações de corridas, desporto e equitação de lazer. Testes ainda estão sendo feitos, mas estimasse que em 14 de abril tinham sido mortos pelo vírus um total de 302, e esperasse que os números continuem a aumentar, as autoridades suspeitam que zebras importadas estejam na origem deste surto, tendo possivelmente beneficiado de lacunas de biossegurança. (Veterinaria Atual, 2020).

Desde 2010, os países que declararam a presença de doença à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) são Botsuana (última notificação em 2010), Eritreia (última notificação em 2010), Gana (última notificação em 2010), Lesoto (última notificação em 2011), Namíbia (última notificação em 2011), Somália (última notificação em 2011), Suazilândia (última notificação em 2011), África do Sul (última notificação em 2011) e Etiópia (última notificação em 2012, a doença foi declarada endêmica ) (Sanidad Animal, 2020).

  1. TRANSMISSÃO/PATOGENIA

O VPEA é transmitido por mosquitos Culicoides imicola e C. bolitinos na África. Outras espécies de Culicoides também podem ser capazes de atuar como vetores (CFSPH, 2015). O vírus não é transmitido por contato, havendo a necessidade do vetor para disseminação entre os animais. Estes vetores são favorecidos em condições úmidas e amenas com temperaturas quentes, além disso o vento também pode ajudar o mosquito a se dissipar entre as regiões (OIE – 2013, adaptado).

O período de incubação nos equídeos pode variar de 3 dias a 2 semanas (geralmente menos de 9 dias). A forma cardíaca desenvolve-se tipicamente mais tarde do que a forma pulmonar. Infecções experimentais sugerem que o período de incubação pode chegar a 21 dias (CFSPH, 2015).

O vírus é encontrado nas vísceras e sangue de cavalos infectados, além de também estar presente no sêmen, urina e quase todas as secreções, durante a viremia, entretanto não existe transmissão por estas secreções. A viremia geralmente dura de 4 a 8 dias em cavalos, mas pode se estender até 21 dias, nas zebras a viremia pode duram até 40 dias. Os animais recuperados não permanecem portadores do vírus (OIE – 2013, adaptado).

  1. SINAIS CLÍNICOS

Existem quatro formas diferentes da enfermidade: a forma superaguda (pulmonar), a forma edematosa subaguda (cardíaca), a forma aguda (mista) e a forma febril. A morte súbita também pode ocorrer sem sinais precedentes. As infecções sintomáticas são observadas com maior frequência em equinos e mulas, predominando as formas pulmonar e mista em populações suscetíveis de equinos. A forma mais branda (febre dos cavalos), tende a desenvolver-se em espécies resistentes tais como asnos ou em cavalos com imunidade parcial (CFSPH – 2015, adaptado). Infecções em zebras e em cavalos com algum tipo de imunidade parcial, normalmente são assintomáticas.

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Figura 2 – Equino infectado com o vírus da peste equina africana.                                       Fonte: Sanidad Animal (2020).

         

        A forma pulmonar da peste equina africana geralmente inicia com febre aguda, seguida de aparecimento súbito de dificuldade respiratória grave, dentro de um ou dois dias. Animais com esta forma muitas vezes ficam com os membros abertos, cabeça estendida e as narinas completamente dilatadas. Outros sinais clínicos podem incluir taquipnéia, expiração forçada, transpiração profusa, tosse espasmódica e exsudato nasal espumoso serofibrinoso. A dispnéia geralmente progride rapidamente e o animal muitas vezes morre dentro de algumas horas após o aparecimento dos sinais respiratórios (CFSPH, 2015).

As principais lesões encontradas em animais com a sintomatologia respiratória são: edema interlobular dos pulmões, o hidropericárdio, derrame pleural, edema dos gânglios linfáticos torácicos, hemorragias petequiais no pericárdio (OIE – 2013, adaptado).

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Figura 3 – Equino que veio ao óbito pela infecção com o vírus da peste equina africana, apresentação de sintomatologia respiratória.                                       Fonte: Ministério da agricultura espanhol (2015).

 

    

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Figura 4 – Pulmão de Equino infectado com o vírus da peste equina africana.
                                      Fonte: Ministério da agricultura espanhol (2015).

A forma cardíaca da peste equina africana geralmente começa com uma febre que dura menos de uma semana. Presença de edemas inicialmente nas fossas supraorbitárias e pálpebras, progredindo para a face, língua, espaço intermandibular, região laríngea e às vezes o pescoço, ombros e peito. Sinais clínicos observados no estágio terminal da doença: depressão grave, cólicas, petéquias ou equimoses na língua e conjuntiva. Muitas vezes ocorre morte por insuficiência cardíaca (CFSPH – 2015, adaptado).

As principais lesões apresentadas por equinos que apresentam a sintomatologia cardíaca são: equimoses gelatinosas subcutâneas e/ou intramusculares, edemas, equimoses epicárdicas e endocárdicas, miocardite e gastrite hemorrágica (OIE – 2013, adaptado).

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Figura 5 – Equino infectado com o vírus da peste equina africana, evidenciação de conjuntiva ocular alterada.
                                      Fonte: Ministério da agricultura espanhol (2015).

 

Os sinais clínicos das formas pulmonar e cardíaca são vistos na forma mista. Na maioria dos casos, a forma cardíaca é subclínica sendo seguida de dificuldade respiratória grave. A doença febril da peste equina africana é caracterizada principalmente pela febre, muitas vezes com redução matinal e exacerbações durante a tarde (CFSPH, 2015).

 

  1. DIAGNÓSTICO

A peste equina é frequentemente diagnosticada por métodos virológicos. Mais de um teste deve ser usado para diagnosticar um surto sempre que possível. O VPEA pode ser isolado do sangue de animais vivos ou de amostras de tecido, especialmente baço, pulmão e gânglios linfáticos colhidos na necropsia. A chance de isolamento bem-sucedido do sangue aumenta quando as amostras são colhidas no estágio febril da doença (CFSPH, 2015).

A identificação do agente pode ser feita pela sorotipagem por neutralização viral contra o vírus isolado contra anti-soros específicos dos nove sorotipos do vírus da peste equina. Outra forma de identificação viral é o imuno ensaio enzimático (ELISA) do tipo específico para o sorogrupo. Dois ensaios foram desenvolvidos, um com anticorpos policlonais contra o vírus e outro usando anticorpos monoclonais contra a proteína VP7. Por fim, pode-se realizar a reação em cadeia da polimerase (RT-PCR) para a detecção específica do genoma do vírus (Sanidad Animal – 2020, adaptado).

 

  1. TRATAMENTO/PREVENÇÃO

Não há tratamento específico para peste equina africana além de tratamento de suporte. Pode ser necessário tratamento para infecções secundárias (CFSPH, 2015).

A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) indica as medidas que devem ser tomadas contra essa doença (Código de Saúde Animal Terrestre, Capítulo 12.1, Peste Equina). Estas medidas estão incluídas na legislação da União Europeia (UE) (DIRECTIVA 92/35 / CEE) (Manual Prático de Operações na Luta contra a Peste Equina Africana (PEA)) (Sanidad Animal, 2020).

Uma resposta rápida é vital para contenção de surtos em regiões livres da peste equina africana. Os veterinários que encontram ou suspeitam desta doença devem seguir suas diretrizes nacionais e/ou locais para o relatório da doença. No Brasil e Estados Unidos as autoridades veterinárias estaduais ou federais devem ser informadas imediatamente (CFSPH, 2015).

Estabular equinos em estábulos a prova de insetos, especialmente do entardecer ao amanhecer (quando Culicoides são mais ativos), podem reduzir o risco de infecção (CFSPH, 2015).

A única vacina comercialmente disponível contra a peste equina africana é baseada em uma versão viva e enfraquecida do vírus que, às vezes, produz sintomas leves e pode até se espalhar para outros cavalos (CAVALUS – 2020).

Entretanto existem outros tipos de vacinas no mundo, como: a vacina viva polivalente ou monovalente, atenuada, para uso geral. Eles são preparados, entre outros, pelo Instituto de Onderstepoort (África do Sul). Entre os polivalentes, há um trivalente (sorotipos 1, 3 e 4) e um tetravalente (sorotipos 2, 6, 7 e 8). Outro tipo é a vacina inativada monovalente. Uma vacina inativada contra o sorotipo 4 foi produzida no Centro de Pesquisa em Saúde Animal (CISA-INIA). No entanto, não está disponível no momento. Por fim existem as vacinas de subunidades recombinantes, utilizando as proteínas VP2, VP5 e VP7 expressas no sistema de baculovírus como imunógenos. No entanto, eles ainda não foram testados em estudos de campo, portanto não podem ser encontrados comercialmente (Sanidad Animal – 2020, adaptado).

 

  1. CONCLUSÃO

Apesar de nunca se ter registrado algum caso de Peste Equina Africana no Brasil, os Médicos Veterinários e Proprietários devem ficar atentos a possíveis sinais clínicos apresentados em seus animais, visto que o mosquito vetor possui afinidade por climas como os apresentados no nosso território.  Portanto, por se tratar de uma doença extremamente letal e não possuir um tratamento para combater o vírus, a prevenção deve ser a maior arma dos que trabalham com equinos.

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAYLIS, M., MELLOR, P. & MEISWINKEL, R. Horse sickness and ENSO in South Africa. Nature 397, 574 (1999).

CAPELA R., PURSE B.V., PENA I., WITTMAN E.J., MARGARITA Y., CAPELA M., ROMAO L., MELLOR P.S., BAYLIS M., Spatial distribution of Culicoides species in Portugal in relation to the transmission of African horse sickness and bluetongue viruses, Med. Vet. Entomol. 17 (2003) 165–177

CAVALUS – Tailândia registra surto de vírus que causa a morte de cavalos, disponível em: https://cavalus.com.br/internacional/tailandia-registra-surto-de-virus-que-causa-a-morte-de-cavalos, acesso em 21 de abril de 2020.

CFSPH – Peste Equina Africana (2015), disponível em:  http://www.cfsph.iastate.edu/Factsheets/pt/african-horse-sickness-PT.pdf, acesso em 21 de abril de 2020.

HOLMES I.H., BOCCARDO G., ESTES M.K., FURUICHI M.K., FAMILY REOVIRIDAE, IN: MURPHY F.A., FAUQUET C.M., BISHOP D.H.L., Ghabrial S.A. (Eds.), Virus Taxonomy. Classification and nomenclature of viruses. Sixth report of the international committee on taxonomy of viruses. Springer, Wien, New York, Arch. Virol. Suppl. 10 (1995) 208–239

MELLOR P.S., BOORMAN J., BAYLIS M., Culicoides biting midges: their role as arbovírus vectors, Annu. Rev. Entomol. 45 (2000) 307– 340.

MIRANDA M.A., BORRAS D., RINCON C., ALEMANY A., Presence in the Balearic Islands (Spain) of the midges Culicoides imicola and Culicoides obsoletus group, Med. Vet. Entomol. 17 (2003) 52–54.

MINISTÉRIO DA AGRICULTURA ESPANHOL – Peste Equina Africana (2015), disponível em:https://www.mapa.gob.es/en/ganaderia/temas/sanidad-animal-higiene-ganadera/sanidad-animal/enfermedades/peste-equina/galeria_peste_equina.aspx, acesso em 21 de abril de 2020.

SANIDAD ANIMAL – African Horse Sickness (AHS). What is African Horse Sickness?, disponível em: https://www.sanidadanimal.info/en/104-emerging-diseases/381-african-horse-sickness , acesso em 21 de abril de 2020.

SARTO I MONTEYS V., SAIZ-ARDANAZ M., Culicoides midges in Catalonia (Spain), with special reference to likely bluetongue virus vectors, Med. Vet. Entomol. 17 (2003) 288–293.

OIE – AFRICAN HORSE SICKNESS Aetiology Epidemiology Diagnosis Prevention and Control References (2013), disponivel em : https://www.oie.int/fileadmin/Home/eng/Animal_Health_in_the_World/docs/pdf/Disease_cards/AFRICAN_HORSE_SICKNESS.pdf, acesso em 21 de abril de 2020.

VETERINARIA ATUAL – Tailândia tenta conter surto de peste equina africana, disponível em: https://www.veterinaria-atual.pt/destaques/tailandia-tenta-conter-surto-de-peste-equina-africana/, acesso em 21 de abril de 2020.

 

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