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Edição 5º Ano 2020 Notícias

Prevenção da Síndrome Cólica

Prevenção da Síndrome Cólica 1
V.5, Ed.1, N.115(2020)

Prevenção da Síndrome Cólica

Letícia Moraes Tavares, 7° período, Universidade Paulista, São José dos campos

 

A cólica é uma síndrome, logo é multifatorial. A fim de prevenir essa síndrome deve-se minimizar ou acabar com as causas. A administração contínua de forragem de boa qualidade, exercícios diários e sistemáticos, vermifugação específica, deita balanceada e parcelada são algumas das medidas preventivas para cólica (BLIKSLAGER, 2019).

 

Um estudo retrospectivo do perfil de mortalidade do Exército Brasileiro entre 2009 e 2016 identificou que no grupo nosológico de doenças do aparelho digestivo, glândulas anexas e peritônio houve morte proporcional de 39,3% e mortalidade específica de 217,8 para cada 10.000 equinos (CAMARGO, LIMA, 2018).

Uma pesquisa retrospectiva da cavalaria Britânica avaliou 717 cavalos no período de 15 anos, sendo que 163 desses apresentaram 267 episódios de cólica (entre 1 a 13 episódios por equino), com 13 mortos por essa enfermidade.

Apesar de todos os cuidados preventivos com anti-helmínticos, mudanças gradativas na dieta, tratamentos e exames dentários anuais, baias grandes e exercícios diários; um dos fatores de risco apontados são privação de pastejo adequado e realização de exercícios mais de uma vez por semana (TANNAHILL, CARDWELL, WITTE, 2018).

O manejo geral (nutricional, sanitário) inadequado, resistência parasitária e a estabulação dos animais ocasionam alterações na mucosa do tratogastrointestinal, na motilidade e na microbiota intestinal, ou seja, altera a fisiologia dos equinos (CAMARGO, LIMA, 2018).

O estudo da cavalaria Britânica correlacionou menores mortes e casos de cólica em regimentos no qual os animais apresentavam maior acesso ao pasto e maiores taxas da síndrome em períodos nos quais a rotina de manejo era alterada por eventos militares (TANNAHILL, CARDWELL, WITTE, 2018).

O confinamento e dieta rica em concentrado predispõem não só a problemas gastrointestinais como também metabólicos, podológicos, estereotipias e estresse. (CAMARGO, LIMA, 2018). Um estudo no Egito demonstrou que equinos com estereotipias apresentaram maior prevalência de cólica (SALEM et. al., 2016).

A síndrome do abdome agudo muitas vezes é sazonal os fatores que podem estar relacionados a isso são: mudança na qualidade do volumoso, períodos sem trabalho (férias, final de ano), estresse térmico, mudança súbita de alimentação (CAMARGO, LIMA, 2018).

Uma pesquisa no Egito realizou questionário para os proprietários de 460 equinos, exame clínico, colheita de sangue (hematócrito e proteína plasmática observados, além de imunodiagnóstico para infecção por Anoplocephala perfoliata) e avaliação odontológica.

Os problemas gastrointestinais relatados foram de 54,9% com total de 371 episódios de cólica em 191 cavalos no período de 1 ano, com maiores taxas em Agosto (período de seca), os animais apresentaram de 1 até 7 episódios de cólica (SALEM et. al., 2016).

Animais com doenças odontológicas apresentaram maior chance de desenvolver a síndrome do abdome agudo. Dessa maneira tratamento dentário profilático é um fator importante para diminuir os casos de cólica (SALEM et. al., 2016).

Um estudo demostrou que 14 de 200 cavalos (7%) vieram a óbito por cólica, sendo 12 dos 14 por estrangulamento intestinal, sendo os processos obstrutivos por estrangulamento a maior causadora de morte entre os tipos de cólica.

As cólicas por obstrução simples (compactação e ingestão de corpo estranho) representa 40% dos animais cirúrgicos, esses casos seriam facilmente evitados se a base alimentar dos animais fosse forragem com fornecimento de concentrado apenas para melhorar performance, manutenção e ganho corporal, não permitir que o animal se exercite por mais de 12 horas por dia (BLIKSLAGER, 2019).

Manter um regime semiestabulado com pastos de qualidade, se não houver espaço deve-se disponibilizar farragem em quantidade e qualidade para os animais, fornecimento de pouca quantidade de ração diária ou fornecimento em porções pequenas várias vezes ao dia, evitar alterações na rotina do manejo são alguns pontos do manejo preventivo a cólica (CAMARGO, LIMA, 2018).

Uma maneira de prevenir a impactação com ascarídeos, impactação de íleo por Anoplocephala perfoliate e cólica tromboembólica (Strongylus vulgaris) é a vermifugação específica para a infestação do animal, dessa forma além de evitar cólica evita-se a resistência parasitária. Outra forma de prevenir a impactação de íleo é diminuir o consumo de fibras macias que podem resultar em mastigação inapropriada, logo passagem de partículas maiores que ficam bloqueando o trânsito do alimento na junção ileal (BLIKSLAGER, 2019).

Impactação de cólon maior geralmente ocorre em sítios anatômicos predispostos (flexura pélvica e cólon dorsal direito), porém também tem influência alimentar, climática (41% dos casos ocorrem no inverno, possivelmente pela diminuição na ingestão de água e mudança na dieta), parada abrupta na realização de exercícios associada a enfermidades musculoesqueléticas, poucas refeições ao dia (faz aumentar a secreção de fluido no intestino delgado levando a perda transitória de 15% da volemia total, logo maior absorção de água na cólon maior, desidratando o conteúdo desse), alta concentração de ração por trato fazendo-a passar muito rápido pela intestino delgado chegando carboidratos solúveis no ceco e cólon maior (BLIKSLAGER, 2019).

Dessa forma o ideal é fazer o trato 6 vezes ao dia em partes iguais de porções pequenas (BLIKSLAGER, 2019). A alteração do manejo nutricional para, se necessário, grande quantidade de ração deve ser porcionado, mesmo que demande várias refeições ao dia. Instalações quem mantem seu plantel em piquete e fornecimento diário de pouca quantidade de ração não apresentou óbitos por cólica (CAMARGO, LIMA, 2018).

De forma profilática a cólica por sablose (geralmente acúmulo de areia em cólon dorsal direito) uma das recomendações é colocar a alimentação em coxos ou chão sem areia (BLIKSLAGER, 2019).

Apesar da maioria dos autores dizerem que a cólica estrangulativa por obstrução ser uma “ação de Deus”, ou seja, sem possibilidade de prevenção. Apesar disso um estudo diz que o estrangulamento mesentérico por lipoma e vólvulo de cólon maior podem ser evitados. O 1° pode ser evitado com dietas balanceadas e manutenção/tratamento de endocrinopatias, principalmente em pôneis e cavalos castrados (BLIKSLAGER, 2019).

O vólvulo de cólon maior é uma das principais causas de morte dos equinos com cólica, pode estar relacionada ao aumento de tempo confinado, mudanças na alimentação que ocasionam mudança na microbiota e consequentemente distensão e distopia de cólon (BLIKSLAGER, 2019).

Em um estudo no Egito os animais com coprofagia ou geofagia demostraram menos casos de cólica, porém o relato necessita de pesquisas mais aprofundadas por acreditar que esses distúrbios estejam relacionados a outros problemas (SALEM et. al., 2016).

Os equinos são animais extremamente susceptíveis a mudança alimentar e hídrica, de manejo, alterações no exercício, alimentos de baixa digestibilidade, ou seja, são muito sensíveis a qualquer mudança de rotina, inclusive na troca de tratadores.

Dessa forma a prevenção da cólica requer alimentação adequada (com base em volumoso em qualidade e quantidade), disponibilidade de água (em temperatura ambiente), exercícios sistemáticos e diários, disponibilidade de pastejo (essencial), vermifugação periódica, exames dentários, entre outras medidas preventivas.

 

REFERÊNCIAS

BLIKSLAGER A. T. Colic Prevention to Avoid Colic Surgery: A Surgeon’s Perspective. Jornal of Equine Veterinary Science. 76. 1-5. 2019.

CAMARGO A. S., LIMA J. R. P. A. Mortalidade dos equinos do exército brasileiro: análise dos dados de 2009 a 2016. Revista Interdisciplinar de Ciências Aplicadas à Atividade Militar. Ano 8. Número 1. 2018.

SALEM S. E. et al. Colic in a working horse population in Egypt: Prevalence and risk factors. Equine Veterinary Journal. 0. 1–6. 2016.

TANNAHILL V. J., CARDWELL J. M., WITTE T. H. Colic in the British military working horse population: a retrospective analysis. Veterinary Record.10.1136.104956. 2018.

 

 

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