Info Equestre
Edição 5º Ano 2020 Semiologia

Fisiologia do Sistema Digestório no Equino

Fisiologia do Sistema Digestório no Equino 1
V.5, Ed.1, N.101 (2020)

FISIOLOGIA DO SISTEMA DIGESTÓRIO NO EQUINO

PHYSIOLOGY OF THE DIGESTIVE SYSTEM IN THE EQUINE

GERLING, M. F. a
a Discente de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre/RS – Brasil.

RESUMO: A espécie equina possui um aparelho digestório com uma série de particularidades anatômicas e fisiológicas. A domesticação do cavalo não levou em consideração seus hábitos alimentares, se adaptando a rotina do homem e não a rotina natural do animal.

Esse manejo nutricional incorreto leva ao acometimento de diversos distúrbios gastrointestinais, muito frequentes, que podem levar ao obtido. Entender a fisiologia do sistema digestório nos permite criar uma melhor estratégia nutricional, respeitando a natureza do cavalo, evitando problemas digestivos e proporcionando bem-estar ao animal.

Palavras-chave: Sistema digestório, fisiologia, anatomia, equino.

ABSTRACT: The equine species has a digestive system with a series of anatomical and physiological particularities. The domestication of the horse did not take into consideration its eating habits, adapting itself to the routine of man and not to the natural routine of the animal.

This incorrect nutritional management leads to several gastrointestinal disorders, very frequent, that can cause death. Understand the physiology of digestive system allows us to create a better nutritional strategy, respecting the nature of the horse, avoiding digestive problems and providing animal welfare.

Keywords: Digestive system, physiology, anatomy, equine.

  1. INTRODUÇÃO

Na natureza, o cavalo passa cerca de 10 a 16 horas pastando, alimentando-se ao longo do dia com pequenas e frequentes refeições, e com base nisso, adaptou seu sistema digestório ao longo do tempo. Os equinos são uma espécie herbívora monogástrica, possuindo um aparelho digestivo com uma série de particularidades anatômicas e fisiológicas, tais como pequena capacidade volumétrica do estômago, o que facilita a fuga de predadores, longo intestino delgado e um intestino grosso muito desenvolvido, capaz de fermentar as fibras presentes nas forragens.

Com a domesticação do cavalo, o período disponível para pastejo diminuiu drasticamente, passando a maior parte do tempo estabulados. Associado a isso, ele passou a receber grandes quantidades únicas de concentrado, alimento esse que seu aparelho digestório não está preparado para receber. Esse manejo incorreto predispõe os equinos a distúrbios gastrointestinais, entre eles a cólica, que é considerada uma das causas mais comuns de morte na espécie. Compreender a fisiologia de todo o aparelho digestório permite uma melhor abordagem, evitando afecções do trato e trazendo a alimentação do cavalo o mais próximo possível do natural.

  1. BOCA

A primeira porção do canal alimentar é a boca, onde se inicia o processo digestivo com a apreensão do alimento.  A apreensão e o corte dá-se pelos dentes incisivos, juntamente com a língua e os lábios, que na espécie equina possui grande mobilidade, permitindo ao cavalo uma alta capacidade de selecionar o alimento. Os equinos pastejam em forrageiras mais baixas, de até 15cm, preferindo folhas e brotos.

A dentição dos equinos difere entre machos e fêmeas, pois estes primeiros apresentam caninos a partir de 5 anos de idade. A formula dentária consiste em 2 (I 3/3 C0(1)/0(1) PM 3(4)/3(4) M 3/3). Além disso, possuem a arcada maxilar 30% mais larga que a mandibular, são hipsdontes e elodontes, com crescimento de 2 a 3mm por ano. Esses fatores predispõem a problemas dentários, como as pontas dentárias, que podem atrapalhar a alimentação do animal.

A mastigação é unilateral, triturando o alimento entre os dentes molares e pré-molares, por meio de movimentos laterais da mandíbula, gerando de 60 a 80 movimentos mastigatórios por minuto. Assim, o alimento é reduzido, facilitando o trânsito intestinal e a liberação de substâncias, como proteínas e açúcares, que serão absorvidas ao longo do trato digestório.

A saliva é conjuntamente importante no processo de deglutição, umedecendo e lubrificando o alimento. Ela é produzida por três pares de glândulas salivares: parótida, submandibular e sublingual. Ao contrário dos carnívoros e onívoros, a saliva equina praticamente não contém enzimas digestivas, como a α-amilase. No entanto, possui uma grande quantidade de minerais e bicarbonato, que atuam no tamponamento do conteúdo gastrico. Os cavalos produzem grandes quantidades de saliva, em média 38 litros por dia, salivando mais com alimentos volumosos do que com concentrados.

  1. ESÔFAGO

O esôfago é um tubo muscular, em média 1,5m de comprimento, indo desde a faringe até o estômago, situando-se a esquerda da traqueia. Comida e água vão do esôfago ao estômago por movimentos peristálticos, em uma onda progressiva de constrição dos músculos circulares do órgão. O esôfago entra no estômago através de um ângulo oblíquo pelo esficnter cárdia, impossibilitando a regurgitação.

  1. ESTÔMAGO

O estômago equino é proporcionalmente pequeno comparado a outras espécies, com capacidade de 8 a 15 litros (Nickel et al 1979), possuindo um formato de feijão. Ele está dividido em duas regiões: uma porção aglandular, na metade proximal do estômago, e outra glandular, na metade distal. A porção aglandular assemelha-se com a muscosa do esôfago e é distituida de glândulas. Ela termina subtamente, formando uma borda elevada e irregular, denominada margo plicato, onde se inicia a porção glandular. A mucosa glandular é dividada em três porções: porção cárdica, porção fúndica e porção pilórica. A porção cárdica compreende uma faixa estreita logo abaixo do margo plicato e secreta apenas muco. A porção fúndica possui células parietais que secretam ácido clorídrico e células principais que secretam pepsinogênio, percursor da pepsina, a qual realizará o primeiro desdobramento das proteínas para absorção no intestino delgado. A porção pilórica é o local das células G que sintetizam a gastrina.

A secreção do ácido clorídrico é estimulada pela ingesta de alimentos, mas permanece em um nível basal mesmo com o estômago vazio. Como já mencionando anteriormente, a saliva atua como tampão aumentando o pH do estômago,  estimulando a secreção de gastrina e, consequentemente, de ácido clorídrico. Nenhuma enzima com capacidade de digestão de carboidrato ou gordura é secretada no estômago. A mistura do bolo alimentar com o suco gástrico leva a uma diminuição do pH em torno de 5 a 6 na porção média do estômago. A passagem de alimentos do estômago para o intestino delgado é constante.

O jejum prolongado e a alimentação excessiva de concentrados, ocasiona a queda do pH estomacal, predispondo a formação de úlceras. Outro ponto a ser ressaltado, é a oferta de concentrado em poucas vezes e em grande volume favorece às cólicas por compactação e a distensão do estômago por gás, que pode levar a ruptura e a morte.

Fisiologia do Sistema Digestório no Equino 2
Figura 1 – Vista lateral direita e lateral esquerda do Sistema Digestório equino. Figura obtida do software 3D Horse Anatomy.
  1. INTESTINO DELGADO

Estendendo-se do estômago ao ceco, o intestino delgado possui cerca de 20m de comprimento e está dividido em duodeno, jejuno e íleo. É a principal região de absorção de nutrientes, como carboidratos, aminoácidos, ácidos graxos, vitaminas e minerais. Nele, não se retém volume significativo, pois o alimento viaja relativamente rápido. O mesentério está conectado ao longo de todo intestino, e é ele que permite uma alta mobilidade das alças dentro da cavidade.

O intestino delgado é revestido por uma mucosa composta por vilosidades, contendo células epiteliais cilíndricas, que possuem microvilosidades, aumentando assim a superfície de absorção, e células caliciformes, responsáveis pela secreção de muco e glândulas que secretam suco entérico. A camada muscular é responsável pelo peristaltismo, que leva o bolo alimentar no sentido crânio-caudal, através de contrações rítmicas. Aproximadamente 15cm do piloro, penetram o ducto pancreático e o ducto hepático no duodeno, que vão liberar, respectivamente o suco pancreático.

O pâncreas produz secreção de maneira contínua, mas com baixa concentração de enzimas (Alexander & Hickson 1970, Kienzle et al 1994), o que explica a incapacidade do sistesma digestório dos equinos em digerir concentrados, que são ricos em proteína. O suco pancreatico tem pH básico, pois possui grande quantidade de bicarbonato, sendo uma importante fonte de tamponamento contra o ácido gástrico que entra no duodeno (Alexander & Hickson 1970, Kitchen et al 2000). Após a adição desse líquido, o pH aumenta para 6,5 no jejuno e íleo, podendo chegar acima de 7 dependendo da alimentação.

Os equinos não possuem vesícula biliar, sendo sua bile constantemente lançada no intestino. Isso se deve ao hábito dos cavalos estarem constantemente se alimentando. A bile emulsiona a gordura presente na dieta para ação digestiva da lipase.

A digestão ocorre pela ação de enzimas que transforma o alimento em partículas menores por hidrólise. O suco pancreático possui enzimas como tripsina, quimiotripsina, elastase, carboxipeptidades A e B, que transformam proteínas em di e tripeptídeos. A lipase quebra a gordura já emulsificada pela bile em ácidos graxos. O amido, por sua vez, é transformado pela amilase em maltose, maltotriose e isomaltose. Já os enterócitos vão produzir enzimas que quebram os dissacarídeos na menor unidade possível de absorção, os monossacarídeos – lactose, glicose, galactose, maltose, sacarose, frutose.

Quanto maior a quantidade de volumoso ingerido, maior é a absorção de minerais (macro e microelementos) e vitaminas. Os nutrientes absorvidos são os que se encontram livres ou que são liberados pela quebra enzimática de moléculas maiores. Em geral, os vegetais apresentam quantidades satisfatórias de vitaminas A, D, E, K, tiamina, riboflavina, niacina, biotina e ácido fólico. Por sua vez, a vitamina B12 será absorvida somente no intestino grosso, como resultado da fermentação das fibras.

  1. INTESTINO GROSSO

O instestino grosso dos equinos é uma das estruturas mais importantes, possuindo um ceco e um cólon – dividido em maior, transversso e menor – extremamente desenvolvidos, o que demonstra o processo de evolução e adaptação aos sistemas de defesa das plantas, que fornecem uma baixa disponibilidade de nutrientes. É nele que será realizada a fermentação do material não digerido no intestino delgado, chegando ao intestino grosso através do óstio ileocecal.

As paredes celulares das células vegetais são compostas pelos carboidratos pectina, hemicelulose e celulose. Os equinos não possuem enzimas capazes de digerir esses carboidratos e por este motivo mantém simbiose com microorganismos que possuem enzimas capazes de realizar essa quebra. A microbiota intestinal é composta principalmente por bactérias Gram -, protozoários e fungos anaeróbicos. Ao contrário do estômago e do intestino delgado, que possuem uma rápida passagem do conteúdo alimentar, ceco e colon estão estruturados para que essa passagem ocorra lentamente, para esses microorganismos poderem agir sobre o conteúdo alimentar.

Os principais produtos da fermentação microbiana são os ácidos graxos voláteis. A celulase quebra a celulose e a hemicelulose e é utilizada para produção de ácido acético e butírico, que ao serem absorvidos, participarão da síntese de lipideos. O amido que não foi digerido no intestino delgado é quebrado pela amilase em glicose e também pode ser utilizado para produção de ácido propiônico. A proteína que chega até o intestino grosso é quebrada pela protease em peptídeos e aminoácidos que serão utilizados na produção de proteína microbiana ou quebrados em amônia e esqueleto de carbono, também usado para a produção de ácidos graxos voláteis. Esses ácidos serão absorvidos por gradiente de concentração, e quando ocorre isso, liberam bicarbonato que auxilia na manutenção do pH, que gira em torno de 6,5. Além disso, a microbiota também é capaz de sintetizar proteínas do complexo B. Eletrólitos e água são absorvidos principalmente no ceco e cólon.

O intestino grosso possui uma grande motilidade, com função de misturar e transportar o alimento, mas que pode variar conforme cada região. Entre o ceco e colón, existe uma estrutura chamada de válvula ceco-cólica onde, uma vez a cada três ou quatros minutos, ocorre uma forte contração empurrando o movimento. Já na flexura pélvica entre o colón dorsal ventral e o dorsal esquerdo, ocorre um movimento antiperistáltico, retendo partículas maiores e possibilitando que sejam melhor aproveitadas.

O cólon transverso é curto e estreito e liga o cólon maior ao menor. O colón menor possui tênias e saculações, que dão formato as fezes. Ali as fezes são recobertas por muco e também pode ocorrer a absorção de água, ácidos graxos voláteis e eletrólitos. A defecação é uma consequência a entrada de fezes na ampola do reto, ocorrendo relaxamento do esfíncter anal interno e abertura do esfíncter anal externo. As fezes podem mudar de aspecto (cor, odor, forma) conforme a dieta do animal.

  1. CONCLUSÃO

            O fornecimento de alimento volumoso de qualidade é de extrema importância para o cavalo, pois além de evitar alterações gastrointestinais, promove o bem-estar animal, principalmente para animais que passam muito tempo em cocheiras, que como forma de se distrair, acabam adquirindo vícios.  Entender e respeitar a fisiologia do sistema digestório é necessário para desenvolver um correto manejo nutricional e permitir que o animal tire o máximo do alimento que lhe é oferecido.

  1. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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JORDÃO, L. R.; REZENDE, A. S. G.; NETO, H. M. A; ESCODRO, P. B. Considerações sobre a Anatomofisiologia do Sistema Digestório dos Equinos: Aplicações no Manejo Nutricional.

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