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Neonatologia Edição 3° Ano 2018

Manejo de Potros ao Nascimento. Entenda

Manejo de Potros ao Nascimento. Entenda 1
v . 3 , n. 17 (2018)

Manejo de Potros ao Nascimento. Entenda a importância !

 

  1. Introdução

A neonatologia equina é o estudo e a ciência do recém-nascido, sendo quee seus cuidados se iniciam na vida intra-uterina, possuindo maior ênfase no terço final da gestação (DE MARIA, 2006). Tais cuidados estão diretamente relacionados à inspeção do sistema respiratório e circulatório, temperatura, cuidados com o cordão umbilical, excreção de mecônio, amamentação do potro e avaliação da placenta. Além disso, possuir o conhecimento do histórico reprodutivo da égua traz informações importantes para possíveis complicações como parto prematuro, distocias e isoeritrólise neonatal (BARR, 2007).
O acompanhamento veterinário com o potro e a matriz é fundamental para a obtenção de diagnósticos de disfunções precoces, que possam ter ocorrido durante o parto ou a presença de anormalidades congênitas, podendo minimizar os prejuízos financeiros, e também, quedas de desempenho em relação ao futuro atleta do animal (Barr, 2007). Ademais, é importante ressaltar que mais da metade das mortes dos neonatos ocorrem do primeiro ao segundo dia de vida, e geralmente são causadas por distorcias e distúrbios não infecciosos, como hipotermia e hipoglicemia (Prestes 2006).

  1. Desenvolvimento
    1. – Avaliação do neonato equino

O parto das éguas possuem uma tendência fisiológica a ocorrerem durante a noite, e seu início geralmente está associado a uma constante agitação e queda da temperatura corpórea do animal. (DE MARIA, 2006). Após o nascimento, é fundamental que o médico veterinário faça o exame clínico a fim de verificar a vitalidade do potro que passou por diversas alterações fisiológicas. Essa assistência direciona o clínico para as diversas condutas que podem ser tomadas e, de acordo com a situação enfrentada, possibilita a escolha para uma intervenção mais adequada. (Nogueira, 2009).
Os potros em condições normais devem apresentar temperatura corpórea entre 37,2 a 38,8ºC e frequência cardíaca após o nascimento em torno de 40 a 80 batimentos por minuto, devido a crescente agitação do potro para ficar em estação. Após essa fase, observa-se uma estabilização da FC entre 70 a 120 batimentos por minuto. A mucosa oral deverá estar rósea ou levemente pálida, e o tempo de preenchimento capilar em torno de 1 a 2 segundos. A frequência respiratória normal será de 20 a 40 ventilações por minuto e o pulso poderá ser palpado a partir da artéria metatarsal (Vaala et al., 2006).
Além do exame físico, é necessário avaliar fatores clínicos e comportamentais. Um potro saudável deve ser capaz de assumir o decúbito esternal poucos minutos após o nascimento e ficar em estação em até 1 hora. O animal deverá apresentar o reflexo de sucção logo após o parto e mamar em cerca de duas horas. A ingestão do colostro é indispensável para adquirir imunoglobulinas, e também, estimula a motilidade gastrointestinal, facilitando a eliminação do mecônio em torno de 4 horas após o nascimento (Koterba, 1990).
A avaliação da placenta também deve ser realizada imediatamente após a expulsão. A placenta deve ser disposta em forma de ‘’F’’ ou ‘’Y’’, e deve-se observar sua disposição e integridade. Ela deve ser pesada e avaliada a fim de identificar sinais de possíveis anormalidades, pois existe uma relação direta entre o peso da placenta e o tamanho do potro saudável (STONEHAM, 2006).
Ao realizar o exame físico, o neonato pode apresentar anormalidades congênitas, sinais de imaturidade, ou traumas que possam ter sido adquiridos durante o nascimento (Vaala et al., 2006). O observador do parto deve ser capaz de reconhecer essas alterações, devendo realizar o atendimento de suporte adequado (DE MARIA 2006).

    1. – Cuidados e tratamentos com o neonato

A intervenção do médico veterinário se inicia quando o potro está recoberto pelas membranas fetais, sendo importante retirá-las e desobstruir as narinas realizando movimentos de fricção com os dedos sobre o nariz, estimulando a respiração do potro. Além disso, é necessário manter a égua em decúbito lateral, posição que facilita a estenose fisiológica do cordão umbilical (THOMASSIAN, 2005).
Caso não ocorra a ruptura do cordão naturalmente, a alternativa mais indicada é romper manualmente, pois a ligadura e secção do cordão pode ocasionar persistência do úraco por não promover uma retração natural. (HAFEZ,2004,SPEIRS,1999). O método manual consiste em realizar a compressão do cordão, em seguida pinçar o cordão umbilical cerca de três dedos abaixo do umbigo, seccionando o umbigo cerca de um dedo abaixo da pinça e por fim realizar a desinfecção do cordão umbilical com tintura de iodo a 5% (Dipp, 2010).
Outro fator a ser observado é a atitude do potro em mamar. Sua importância está diretamente ligada à ingestão de colostro, que além da nutrir, protege contra agentes infecciosos por meio da produção de imunoglobulinas ou anticorpos (CUNNINGHAM & KLEIN, 2008). Isso ocorre devido ao tipo de placenta dos equinos (epitéliocorial difusa) que não permite transferência de imunidade durante a gestação. A ingestão de colostro deverá ocorrer nas primeiras horas de vida pois as células epiteliais do intestino passam por modificações, reduzindo gradativamente seu poder de absorção (Figueira, 2009). Com 24 horas após o nascimento a taxa de absorção fica abaixo de 1% (THOMASSIAN, 2005).
A avaliação do colostro é fundamental para garantir a eficácia na transferência de imunidade do potro. Ela consiste na avaliação física (coloração, consistência e gravidade específica) e laboratorial. Colostros de baixa qualidade, agalactia de égua, ordenha precoce, má absorção intestinal, alterações congênitas, amamentação tardia causada por má formação dos membros podem resultar em deficiências na transferência de imunidade, tornando fundamental a avaliação dos níveis de imuno-competência. (THOMASSIAN, 2005).
Os métodos de fracionamento de proteína por eletroforese, imunodifusão radial, avaliação imuno-enzimática, aglutinação com látex e método de turvação com sulfato de zinco são alguns dos que são capazes de avaliar a eficiência ou deficiência da transferência de imunidade. Para que um potro possua a imuno-competência considerada adequada, seus valores deverão estar acima de 400 mg/dl. Valores de IgG abaixo de 200 mg/dl é indicativo de falência absoluta na transferência de imunidade, valores de 200 a 400 mg/dl, indicam falência parcial (THOMASSIAN, 2005).
Caso os valores avaliados se apresentarem abaixo de 400 mg/dl, deve-se instituir o potro a terapia com plasma para diminuir os riscos infecções, septicemia e possivelmente, óbito (Felipe, 2013).
Em casos de potros órfãos logo após o nascimento é fundamental que ocorra adequada e rápida transferência de anticorpos maternos (McAULIFFE & SLOVIS, 2008). Neste caso, o colostro deverá ser proveniente de éguas da mesma região, devido à especificidade dos anticorpos para doenças prevalentes no local (KNOTTENBELT et al., 2004). Nas primeiras seis horas de vida, deve ser fornecido de 2 a 3 litros de colostro, em pequenas doses de 300 a 500ml, com intervalo de 1 a 2 horas (ANDERSON, 2008).
Além de proporcionar a transferência de imunidade, o colostro é capaz de estimular o trânsito fecal por possuir propriedades laxativas que contribuem para a eliminação do mecônio. (TORRES & JARDIM, 1981). Caso o potro não o elimine nas primeiras 2 horas de vida, o quadro de retenção terá início e poderá acarretar quadro de cólicas no recém-nascido. Para tratar, é necessário realizar enemas com solução de glicerina líquida neutra e água morna (Dipp, 2010).
Após os diversos cuidados ao nascimento, o potro e sua mãe deverão ser mantidos no piquete maternidade até 7 -10 dias. Em seguida, poderão ser transferidos para piquetes específicos, cuja observação servirá para garantir o bem estar do potro e da égua. Caso o animal venha a apresentar ectoparasitas, será necessário proceder uma vermifugação periódica, com início 30-60 dias e repetir a cada 60-90 dias conforme o manejo e vermífugo utilizado (HAFEZ,2004).

    1. – Atenções extras

Além dos cuidados citados, cuidados extras com o ambiente, vacinação e equipamentos utilizados também são de extrema importância. Os potros devem ser alojados em instalações secas, ventiladas e esterilizadas com desinfetantes, bem como os equipamentos utilizados para alimentação. O local deve estar com temperatura em torno de 25ºC e não pode ter sido alvo de históricos de desordens intestinais, a fim de evitar a disseminações de doenças com animais susceptíveis (KNOTTENBELT et al., 2004).
Principalmente para neonatos órfãos, programas de vacinação e vermifugação são essenciais. Os potros devem receber as vacinas contra tétano, encefalomielite, influenza, rinopneumonite e rodococus aos 60 dias de vida, com reforço 4 a 6 semanas após a primeira administração. A vermifugação também pode ser iniciada aos 60 dias e com reforço a cada 2 meses (ANDERSON, 2008).

  1. Conclusão

Diante do que foi tratado, é notório a importância de um bom manejo, associado ao acompanhamento veterinário regular para garantir a saúde e bem estar do potro. As avaliações e exames são primordiais, a fim de evitar enfermidades que possam estar predispostas a ocorrerem, para que assim, o médico veterinário responsável possa realizar um diagnóstico precoce, consequentemente, aumentando as chances de um tratamento mais efetivo, diminuindo os índices de mortalidade dessa espécie.

Texto por: Beatriz Gonçalves Blanco, 5°Semestre, Universidade Anhembi Morumbi, São Paulo, Brasil e Maria Clara Miranda, 5º Semestre, Universidade Potiguar –UnP, Natal, RN.

Manejo de Potros ao Nascimento. Entenda a importância !

Referências Bibliográficas
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DIAS, R.V.C.; Pimentel, M.M.L. Cuidados Com Neonatos Equinos – Acta Veterinaria Brasilica, v.8, Supl. 2, p. 302-304, 2014.
DIPP, G. Clínica Médica e Neonatologia Equina. Trabalho de conclusão de curso. Universidade Tuiuti do Paraná faculdade de Ciências Biológicas e da Saúde curso de Medicina Veterinária. Curitiba, 2010.
FELIPPE, M. Julia B. Imunodeficiências Primárias em Equinos. Veterinária e Zootecnia, v. 20, p. 60-72, 2013.
FIGUEIRA, Y.F. Transferência placentária e colostral de selênio em éguas gestantes suplementadas com fonte orgânica e inorgânica de selênio. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo. 2009.
HAFEZ,B. Reprodução Animal. São Paulo: Manoele,2004
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KNOTTENBELT, D. C.; HOLDSTOCK, N.; MADIGAN, J. E. Equine neonatology. 1. ed. Saunders, 2004. 459-469 p.
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1 comment

Elinson 19 de junho de 2018 at 19:30

El empleo del test de apgar es una excelente alternativa como herramienta diagnostica del neonai.

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