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Notícias Edição 5º Ano 2020

Desmame de Potros: Qual a Época Correta e Como Deve ser Feito

Desmame de Potros: Qual a Época Correta e Como Deve ser Feito
V.5, Ed.1, N.169(2020)

DESMAME DE POTROS: QUAL A ÉPOCA CORRETA E COMO DEVE SER FEITO?

(WEANING OF COLTS: WHAT IS THE CORRECT TIME AND HOW SHOULD IT BE DONE)

SOUSA, L. E. DE C.1

1Graduanda do oitavo período de Medicina Veterinária pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) – Endereço para contato: [email protected]

RESUMO

Dentre os vários desafios encontrados pelos equinos durante sua vida, o desmame é a primeira grande mudança enfrentada por eles. No meio natural, o desmame acontece geralmente perto do nascimento da próxima cria da mãe, sendo ela mesmo quem controla esse processo, e o potro continua ao seu lado mesmo no pós-desmame.

Em sistemas de criação, é realizado o desmame artificial, geralmente entre 4 e 6 meses de vida, que, além uma transição alimentar, onde o leite deixa de ser a base e é substituído por alimentos sólidos, os potros enfrentam desafios psicológicos ao serem separado de suas mães e social, por ficarem isolados em ambiente diferente ou colocados com outros animais desconhecidos.

Por tantos motivos, esse processo artificial de desmame é estressante, podendo levar a algum prejuízo no crescimento, desenvolvimento, interações com outros animais e com os humanos e comportamentos estereotipados.

Existem diferentes métodos de desmame, que variam de acordo com o destino do potro e as preferencias dos proprietários, porém, o ideal sempre é aquele que irá gerar o menor estresse possível ao animal.

Palavras-chave: desmame gradual, potros, desmame abrupto.

*O texto a seguir visa apresentar e comparar as formas de desmame artificial descritas na literatura, bem como os possíveis danos de determinado método e algumas maneiras adotadas para que o estresse gerado nessa fase seja menor.

ABSTRACT

Among the various challenges faced by horses during their lifetime, weaning is the first major change faced by them. In the natural environment, weaning usually occurs close to the birth of the mother’s next foal, she controls this process and the foal remains at his side, even after weaning. In productive systems, artificial weaning is carried out, usually between 4 and 6 months of life, which, in addition to a dietary transition, where milk is no longer the base and is replaced by solid foods, foals face psychological challenges, as they are separated from their mothers and social, for being isolated in a different environment or placed with other unknown animals. For many reasons, this process of artificial weaning is stressful and can lead to some impairment in growth, development, interactions with other animals and with humans and stereotyped behavior. There are different methods of weaning, which vary according to the foal’s destination and the owners’ preferences, however, the ideal is always the one that will generate the least possible stress to the animal.

The following text aims to present and compare the forms of artificial weaning described in the literature, as well as the possible damages of a certain method and some ways adopted so that the stress generated in this phase is less.

Keywords: gradual weaning, foals, abrupt weaning.

  1. INTRODUÇÃO

Os equinos sofrem várias mudanças alimentares de acordo com a fase fisiológica que se encontram e/ou trabalho que exercem. O período compreendido entre o nascimento e os dois anos de idade é a mais crucial, pois é a fase de maior crescimento e desenvolvimento do animal, necessitando de manejo e condições de vida que garantam que o jovem atinja seu tamanho adulto ideal, que permita a máxima saúde e desempenho. Também, é nessa fase que o cavalo passa por sua primeira grande mudança depois do nascimento, o desmame, processo estressante que deve ser feito de maneira correta para que possíveis prejuízos, a curto e longo prazo, sejam evitados (GEOR et al., 2013).

No meio natural, o desmame é progressivo e controlado pela mãe, acontece em idades variadas, geralmente acontece próximo à chegada da próxima cria, porém, pode persistir mesmo com o nascimento subsequente. O consumo de leite reduz gradualmente enquanto o de alimentos sólidos aumenta. O potro começa a desenvolver certa independência nesse período (HENRY et al., 2012).

Desmame de Potros: Qual a Época Correta e Como Deve ser Feito 1

Pelo método artificial, há mudanças nutricionais, sociais e psicológicas, podendo se tornar um processo traumático tanto para mãe quanto para o filho e interferir negativamente no crescimento (HENRY et al., 2012; GEOR et al., 2013). Geralmente há separação abrupta entre mãe e filho; isolamento ou junção de vários animais desconhecidos e mudanças ambientais.

Tais fatores predispõem ao estresse e a mudanças comportamentais, como vocalização excessiva; alterações alimentares e de sono e agressividade principalmente nos primeiros dois dias, mas podendo pendurar por períodos maiores ou serem permanentes e comprometer o animal quando adulto (HENRY et al., 2012, WARAN et al., 2008).

Em muitos casos, outros procedimentos, como vermifugação e iniciação ao cabresto, coincidem com o período do desmame, potencializando o estresse e por isso devem ser evitados durante essa fase (McCALL et al., 1985).

Existem diferentes métodos de desmame, que vão de acordo com a finalidade daquele animal (destinado à venda, por exemplo) (CINTRA, 2016) e a escolha da época mais adequada depende do desenvolvimento e crescimento do potro e das preferências da propriedade de criação, que acontecem geralmente entre 4 e 6 meses de idade (CINTRA, 2016; WARAN et al., 2008).

Para realizar o desmame a partir do quarto mês de vida, é importante que os potros já comam forragem, bebam água e tenham acesso ao creep feeding, composto por concentrados substitutos de leite ou mistura de grãos, que auxiliam no desenvolvimento microbiológico do TGI e tem como objetivos compensar as deficiências nutricionais ou energéticas causadas pela diminuição na ingestão ou qualidade do leite e evitar que as mudanças alimentares prejudiquem o crescimento e desenvolvimento do potro (CINTRA, 2016; GEOR et al., 2013; KNOTTENBELT et al., 2004).

O creep feed pode ser introduzido a partir dos 10 dias de vida, nas quantidades ideais para cada animal (KNOTTENBELT et al., 2004)

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  1. MÉTODOS DE DESMAME

2.1. DESMAME PRECOCE

Esse método, do ponto de vista prático e econômico, não é o recomendado, porém, em casos de órfãos, de doenças relacionadas à égua ou ao potro e naqueles onde a égua não reconhece a cria e se torna um perigo para ela, o desmame precoce apresenta um valor prático (FRAPE, 2013).

Os potros são separados da mãe no dia do nascimento ou nos primeiros dias, geralmente aos três a cinco dias, de acordo com a situação apresentada. Antes de qualquer outro alimento, todos os potros devem ser receber colostro fresco ou congelado no primeiro dia e depois é necessário fornecer, no mínimo, seis refeições de leite por dia, se tornando um processo mais trabalhoso, que exige uma maior atenção dos tratadores e donos, podendo interferir na rotina da propriedade (FRAPE, 2013).

Rações creeper devem ser introduzidas na semana seguinte ao nascimento e o acesso à pastagem ou feno de boa qualidade deve ser imediato. Também, é importante que o potro tenha acesso a fezes frescas de adultos saudáveis, para que aconteça a coprofagia, processo fisiológico natural que auxilia na formação da flora intestinal (KNOTTENBELT et al., 2004).

2.2. DESMAME ABRUPTO

Esse método consiste em separar mãe e filho permanentemente de uma só vez, sem posterior contato físico, visual, auditivo e olfativo (ZOIBER, 2015). É um método considerado muito estressante para o potro (MOONS et al., 2005; SPINDOLA et al., 2017).

McCall et al (1985) em seus estudos comparando métodos de desmame abrupto e gradual, com e sem ração pré-desmame, avaliando vários comportamentos realizados pelos animais, observou que aqueles do grupo de desmame abrupto passaram mais tempo caminhando e menos tempo parado em relação aos outros; vocalizavam com mais frequência, principalmente na segunda hora pós desmame; também observaram agressão entre os animais e sucção não nutricional, ambas tanto por esse método quanto pelo desmame gradual; e que os potros desmamados abruptamente, porém que receberam ração no pré-desmame, apresentaram menos sinais comportamentais de estresse.

Outro estudo de McCall et al. (1987) comparando os mesmos métodos de desmame, porém, avaliando as respostas fisiológicas dos animais, demonstrou um aumento de corticoides no sangue daqueles dos grupos de separação abrupta; menor consumo de ração na primeira semana e os dados obtidos confirmam os achados comportamentais do estudo anteriormente citado. McCall et al. (1987) relata também que mesmo com a diminuição no consumo na primeira semana, o consumo foi semelhante em todos os grupos a partir da segunda semana e o ganho de peso total não foi afetado por esse método.

No estudo de Sipindola et al. (2017) que avaliou a influência do estresse do desmame sobre a resposta in vitro do fator de necrose tumoral (TNF- α) em potros Mangalarga Marchador, foi observado, semelhante ao trabalho anteriormente citado, que o método abrupto induz um grande estresse, o qual produziu uma quantidade de cortisol endógeno, suficiente para reduzir a expressão de TNF-α, levando a supressão da resposta imune celular nos sete primeiros dias pós-desmame e deixando o potro susceptível a infecções oportunistas.

2.3. DESMAME GRADUAL

É uma um método de desmame em que a separação entre égua e potro acontece de forma progressiva, deixando o animal longe da mãe por algumas horas no dia, período que vai aumentando até a separação completa ou pode ser realizado também com a separação física entre els, mas permanecem em locais que permitam contatos visuais, auditivos e olfativos (ZOIBER, 2015). Considerado um método menos estressante para o potro do que o abrupto (MCALL et al., 1987).

McCall et al. (1985) em seu estudo observou que os potros separados parcialmente, que possuíam contato auditivo, olfativo e visual e que receberam creep feeding no pré-desmame permaneceram com padrões locomotores semelhantes tanto no pré quanto no pós-desmame; passaram menos tempo caminhando e mais tempo parados ou em decúbito lateral; o padrão de vocalização dos grupos parcialmente separados, com e sem creep feeding pré-desmame, foi semelhante ao dos potros controle que não foram desmamados, apresentando somente um leve aumento na frequência na primeira hora, com redução constante. Foi observado também agressões a outros potros e sucção não nutricional em todos os grupos, como citado.

Em McCall et al. (1987) foi observado que os potros desmamados pelo método parcial obtiveram valores de cortisol igual ao grupo controle, demonstrando que não houve um estresse excessivo durante o desmame e o consumo de ração na primeira semana pós-desmame foi maior do que nos grupos que foram separados de forma abrupta, mas se tornando semelhante em todos os grupos da segunda semana em diante.

  1. ALGUNS OUTROS FATORES A SE CONSIDERAR NO DESMAME

As formas de desmames descritas podem ser realizadas individualmente, com apenas um potro isolado ou em grupos de animais. Os potros desmamados individualmente e isolados apresentam evidências de maior estresse, representado por maior frequência de vocalização (HOUP et al., 1984); são mais tímidos ao se relacionar com outros potros quando introduzido em um grupo (ZOIBER, 2015) e possuem diminuição no bem-estar, podendo desenvolver comportamentos estereotipados (HELESKI et al., 2002).

Os animais desmamados em pares e em grupos apresentam menos estresse e vocalizam menos (HOUP et al., 1984; HELESK et al., 2002); se observa agressões, talvez sendo o fator mais estressante para eles, entretanto, isso pode ser amenizado introduzindo éguas adultas de temperamento amigável ao grupo (HENRY et al., 2012; HOFFMAN et al., 1995) e apresentam maior bem-estar e desenvolvimento sensorial (HELESKI et al., 2002).

O acesso e adaptação à dieta sólida antes do desmame e o tipo de alimento fornecido são fatores que podem afetar o estresse no pós-desmame. O fornecimento ou não de concentrados no pré-desmame parece não interferir a longo prazo no desenvolvimento, crescimento e ganho de peso do animal, mas o acesso a eles anterior ao desmame facilita a ingestão de ração no pós- desmame imediato, fazendo com que o potro sinta menos o estresse do processo (CINTRA, 2016), além dos outros benefícios já mencionados na introdução. Dois tipos de alimento concentrado oferecidos aos animais no desmame foram comparados no estudo de Nicol et al. (2005) e foi observado que potros que se alimentavam de uma dieta de gordura e fibras se apresentavam menos angustiados logo após o desmame, mais atentos e sensíveis ao meio ambiente do que aqueles que se alimentavam de uma dieta energética, compostas por açúcares.Desmame de Potros: Qual a Época Correta e Como Deve ser Feito 2

No mesmo estudo de Nicol et al. (2005), foi observado que os animais desmamados em celeiros apresentaram maior estresse do que aqueles colocados em piquetes. O mesmo foi observado anteriormente em Heleski et al. (2002), que comparou animais em baias e piquetes, onde os confinados em baias apresentaram maior estresse. Tais dados evidenciam que o lugar a ser escolhido para realizar o desmame deve ser sempre considerado.

  1. CONCLUSÃO

            O desmame é um processo estressante para o jovem e requer atenção ao ser realizado. De acordo com as fontes utilizadas conclui-se que o desmame em grupos e de forma gradual se mostrou mais eficiente no quesito de bem-estar animal; influências do estresse e desenvolvimento sensorial.

A introdução de uma ou mais éguas no grupo pode ajudar a reduzir a agressividade desenvolvida entre os potros. A introdução do creep feeding no pré-desmame é importante para a redução do estresse no pós-desmame imediato, independente do método, mesmo que seu fornecimento não interfira no desenvolvimento, crescimento e ganho de peso.

  1. REFERÊNCIAS

CINTRA, A. G. Alimentação Equina: nutrição, saúde e bem-estar. 1. ed. Rio de Janeiro: Roca, 2016. 354 p. ISBN 978-85-277-3011-2. E-book (354 p.).

FRAPE, D. Equine Nutrition and Feeding. 4. ed. [S. l.]: Wiley-Blackwell, 2010. 514 p. ISBN 9781405195461.

GEOR, R. J.; HARRIS, P. A.; COENEN, M. (ed.). Equine Applied and Clinical Nutrition. [S. l.]: Saunders Elsevier, 2013. 679 p. ISBN 978-0-7020-3422-0.

HELESKI, C. R.; SHELLE, A. C.; NIELSEN, B. D.; ZANELLA, A. J. Influence of housing on weanling horse behavior and subsequent welfare. Applied Animal Behaviour Science, [s. l.], v. 78, p. 291-302, 2002.

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HOFFMAN, R. M.; KRONFELD, D. S.; HOLLAND, J. L.; GREIWE-CRANDELL, K. M. Preweaning Diet and Stall Weaning Method Influences on Stress Response in Foals. Journal of Animal Science, [s. l.], v. 73, n. 10, p. 2922, 1995.

HOUPT, K.A.; HINTZ, H.F.; BUTLER, W.R. A preliminary study of two weaning methods of weaning foals. Applied Animal Behaviour Science. v. 12, p. 177-181, 1984.

KNOTTENBELT, D.; HOLDSTOCK, N.; MADIGAN, J. E. Equine Neonatology Medicine and Surgery. [S. l.]: Saunders Elsevier, 2004. 508 p. ISBN 0702026921.

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SPINDOLA, B. F.; BOTTEON, P. de T. L.; ROCHA, F. F.; CALADO, S. B.; BOTTEON, R. de C. C. M.; RODRIGUES, I. M. S. M. da M.; MARINHO, L. M. Estresse de desmame influencia a resposta in vitro de fator de necrose tumoral em potros Mangalarga Marchador. Brazilian Journal of Veterinary Medicine, [s. l.], v. 39, n. 3, p. 165-169, 2017.

WARAN, N. K.; CLARKE, N.; FARNWORTH, M. The effects of weaning on the domestic horse (Equus caballus). Applied Animal Behaviour Science , [s. l.], v. 110, p. 42-57, 2008.

ZIOBER, T. M. Farores a serem considerados na escolha do período de desmame de potros. Orientador: Rodrigo Arruda de Oliveira. 2015. 32 p. Trabalho de conclusão de curso (Gaduação em Medicina Veterinária) – Universidade de Brasília, [S. l.], 2015.

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