Info Equestre
Notícias Edição 5º Ano 2020

Febre do Transporte

Febre do Transporte 1
V.5, Ed.1, N.159(2020)

FEBRE DO TRANSPORTE

(SHIPPING FEVER)

SOARES, J. P.1

1 Graduanda do nono período de Medicina Veterinária pela Universidade Cruzeiro do Sul E-mail: [email protected]

 

RESUMO

Febre do transporte, também conhecida como shipping fever, é uma condição que afeta equinos submetidos a longos períodos de transporte. Entende-se que o stress causado pela viagem pode desencadear reações decorrentes da queda da imunidade, sendo a pirexia e a pneumonia as principais observadas. Os sinais clínicos são sinais clássicos de pneumonia ou pleuropneumonia e o diagnóstico clínico geralmente é suficiente. Cultura e antibiograma devem ser feitos em casos refratários. O tratamento é sintomático e a prevenção deve ser feita antes, durante e depois do transporte, sendo que o animal transportado deve ser mantido em observação até 5 dias depois da chegada.

Palavras-chave: Shipping fever; distância; pneumonia.

ABSTRACT

Shipping fever is a condition that affects horses who are subjected to long period transports. It is understood that the stress caused by the trip can trigger reactions resulting from the drop in immunity, with pyrexia and pneumonia being the main ones observed. Clinical signs are classic signs of pneumonia or pleuropneumonia and clinical diagnosis is usually sufficient. Culture and antibiogram should be done in refractory cases. Treatment is symptomatic and prevention must be done before, during and after transport, for the transported animal must be kept under observation until 5 days after its arrival.

Keywords: Transport fever; distance; pneumonia.

 

INTRODUÇÃO

Um grande número de cavalos é transportado, local, nacional e internacionalmente a cada ano. A legislação nacional e as diretrizes internacionais estabelecem padrões para a saúde e o bem-estar dos animais durante o transporte. Como consequência, os clínicos de equinos têm grandes responsabilidades em proteger a indústria de cavalos contra a propagação de doenças e em conhecer os problemas inerentes ao transporte de cavalos (LEADON et al., 2008).

No transporte de longa distância, existem problemas como a pirexia (febre do transporte) ou com pneumonia, que ocorre com o agravamento da febre do transporte. Estes problemas são causados principalmente pelo estresse do transporte e / ou degradação dos ambientes em caminhões transportadores (AKAI; HOBO; WADA, 2008).

Uma pesquisa sobre febre do transporte na Austrália revelou uma taxa de incidência de 9,2% e, em outra no Japão encontraram uma taxa de 11,9% para cavalos transportados por 25 a 28 horas em distâncias de 1.000 a 1.300 km.  Os efeitos prejudiciais do transporte como a pneumonia associada variam de desempenho reduzido após a chegada à hipóxia e dificuldade respiratória que requer tratamento (MAEDA; OIKAWA, 2019).

 

Febre do Transporte 11
Figura 1 – Animais sendo transportados coletivamente. Fonte: <https://br.pinterest.com/pin/815573813739221361/>. Acesso em 20 de junho de 2020 às 20h15.

DESENVOLVIMENTO

Shipping fever, ou febre do transporte é uma síndrome associada ao transporte observada em equídeos e bovinos transportados por longas distâncias. O perfil microbiano e os sinais clínicos variam entre espécies, e em cavalos é caracterizada por bactérias comensais da faringe e material particulado em aerossol que invade as vias aéreas inferiores devido a comprometimento dos mecanismos mucociliares durante o transporte. Isso leva à pirexia, inflamação do parênquima pulmonar, inapetência e, em casos graves, pleuropneumonia.

Os cavalos são geralmente transportados em contato próximo com cavalos de origens mistas, o que leva ao aumento da carga de patógenos entre cavalos já comprometidos. Além disso, os cavalos são transportados mais comumente com a cabeça mantida acima do nível da cernelha, em longo prazo, prejudicando os mecanismos de defesa do sistema respiratório inferior (MAEDA; OIKAWA, 2019).

Figura 1 – Animais sendo transportados coletivamente.

Fonte: <https://br.pinterest.com/pin/815573813739221361/>. Acesso em 20 de junho de 2020 às 20h15.

A região broncoalveolar dos cavalos pode ser infectada por patógenos oportunistas, incluindo Streptococcus equi subsp. zooepidemicus (S. zooepidemicus), residente dos tecidos tonsilares e traquéia, considerado o principal organismo causador da febre do transporte (ENDO et al., 2017).

A experiência do stress durante o transporte suprime as defesas do trato respiratório e as partículas nas vias aéreas ou bactérias podem não ser combatidos corretamente. Consequentemente, a migração de neutrófilos para o trato respiratório inferior é uma parte essencial na defesa contra os agentes invasores. Um número excessivo de neutrófilos no parênquima pulmonar pode danificar as células e a matriz extra-celular ao liberar radicais livres de oxigênio e proteases de tecido conjuntivo (ITO et al., 2001).

O tratamento da pleuropneumonia associada ao transporte está ligado a um prognóstico reservado. Os sinais clínicos devem ser observados previamente pelo transportador e proprietário para que a incidência da doença seja menor (ITO et al., 2001; MAEDA; OIKAWA, 2019).

Os sinais clínicos iniciais da febre do transporte podem ser inespecíficos, com o mais comum sendo a pirexia. Vários estudos mostraram que a incidência de pirexia associada ao transporte aumenta com o tempo de viagem ou distância (MAEDA; OIKAWA, 2019).

Também podem incluir inapetência, letargia, tosse, descarga nasal, dispneia, taquicardia, cotovelos abduzidos, relutância em se mover e marcha rígida (HURLEY et al., 2016).

O lavado broncoalveolar (LBA) é um método diagnóstico que tem se tornado muito amplo na medicina humana. O objetivo do tratamento é, de forma atraumática, injetar fluido nas vias aéreas, para coletar algum líquido presente no epitélio e células alveolares e do trato respiratório inferior no momento em que esse fluido é aspirado de volta.

A lavagem pulmonar direta vem se mostrado um método eficaz, seguro e passível de ser usado como tratamento para doenças pulmonares graves, como a proteinose alveolar pulmonar, ou exposição aguda à partículas inorgânicas. Em equinos, o LBA tem sido empregado no diagnóstico de doenças pulmonares como a doença inflamatória das vias aéreas, doença pulmonar obstrutiva crônica ou hemorragia pulmonar induzida por exercício (ITO et al., 2001).

De acordo com Maeda e OIkawa (2019), a aferição da temperatura retal é útil para diagnóstico e controle da doença. Os autores defendem que o parâmetro deve ser feito antes da viagem, durante e até sete dias depois do desembarque do animal.

O tratamento deve ser dirigido contra o microrganismo causador, mas, na ausência de resultados microbiológicos, devem ser administrados antibióticos de amplo espectro. A terapia apropriada deve incluir penicilina sódica ou potássica aquosa intravenosa e um aminoglicosídeo ou uma cefalosporina de terceira geração. O metronidazol deve ser incluído no esquema de tratamento quando se observar odor fétido ou corrimento nasal ao exame físico do animal.

O tratamento da pleuropneumonia é dirigido para a remoção de líquido pleural excessivo, administração de terapia analgésica e antimicrobiana sistêmica e instituição de cuidados de sustentação. Outras modalidades de tratamento que foram preconizadas incluem nebulização e uso de broncodilatadores e expectorantes, embora a eficácia destes agentes farmacológicos não tenha sido totalmente examinada (REED; BAYLY, 2000).

Endo et al (2017), reportaram em seu estudo uma diminuição na incidência de febre do transporte, ao utilizar antimicrobianos de forma profilática antes do embarque dos animais. Foram utilizados Enrofloxacina associado ao Interferon-a; e Marbofloxacina. Os autores relatam que os níveis de cortisol mensurados nesses animais foram menores, assim, diminuindo sua predisposição a doenças pulmonares.

Métodos decisivos para sua prevenção ainda não foram estabelecidos e os cavalos puro sangue de corrida ainda estão entre os principais predispostos à febre do transporte (AKAI; HOBO; WADA, 2008).

 

CONCLUSÃO

A febre do transporte pode causar sérios prejuízos financeiros e à vida do animal, já que o animal acometido fica impossibilitado de realizar a atividade pela qual foi transportado inicialmente, até que demonstre melhora clínica e o final do tratamento. Portanto, a profilaxia se mostra a melhor estratégia para controle da doença. Melhores condições de transporte, menor número de animais e até paradas com períodos de repouso durante a viagem são formas de prevenção que podem reduzir significativamente a incidência da doença.

Além disso, a avaliação física dos animais antes do embarque pode controlar a disseminação de doenças prévias e uma segunda avaliação ao desembarque permite um melhor prognóstico para animais acometidos.

 

REFERÊNCIAS

AKAI, M.; HOBO, S.; WADA, S. Effect of low-dose human interferon-alpha on shipping fever of thoroughbred racehorses. Journal of Equine Science, v. 19, n. 4, p. 91–95, 2008.

ENDO, Y. et al. Effects of pre-shipping enrofloxacin administration on fever and blood properties in adult thoroughbred racehorses transported a long distance. Journal of Veterinary Medical Science, v. 79, n. 3, p. 464–466, 2017.

HURLEY, M. J. et al. The incidence and risk factors for shipping fever in horses transported by air to Hong Kong: Results from a 2-year prospective study. Veterinary Journal, v. 214, p. 34–39, 2016. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1016/j.tvjl.2016.01.006>.

ITO, S. et al. Bronchoalveolar Lavage for the Diagnosis and Treatment of Pneumonia Associated with Transport in Thoroughbred Racehorses. Journal of Veterinary Medical Science, v. 63, n. 12, p. 1263–1269, 2001.

LEADON, D. et al. Veterinary management of horse transport. Veterinaria italiana, v. 44, n. 1, p. 149–63, 2008. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20405422>.

MAEDA, Y.; OIKAWA, M. aki. Patterns of rectal temperature and shipping fever incidence in horses transported over long-distances. Frontiers in Veterinary Science, v. 6, p. 1–10, 2019.

REED, S. M.; BAYLY, W. M. Sistema Respiratório. In: Medicina Interna Equina. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000. p. 235–239.

 

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