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Notícias Edição 6º Ano 2021

Rotavirose em Potros

Rotavirose em Potros
V.6, Ed.1, N.08 (2021)

Rotavirose em Potros

TAVARES, L. M.¹

¹Letícia Moraes Tavares, 7° período, Universidade Paulista, São José dos campos.

 

A rotavirose tem distribuição mundial (Argentina, Alemanha, Austrália, África do Sul, Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Japão) (CALEFFO, 2017). O rotavírus equino tipo A (ERVA – Equine Rotavirus A) é uma das maiores causas de diarreia em potros mundialmente (CAROSSINO et. al., 2018). É um patógeno ambiental muito comum, principalmente, em fazendas de reprodução (CALEFFO, 2017). Nesse texto será abordado a história, etiologia, epidemiologia, transmissão, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico, terapia e profilaxia.

O rotavírus foi descoberto em 1973 na diarreia de uma criança. Em 1975 esse vírus foi identificado nas fezes de potros na Inglaterra e desde então é uma das maiores causa de diarreia em potros (GARAICOECHEA et. al., 2011; CAROSSINO et. al., 2018).

Rotavírus pertence á família Reoviridae, subfamília Sedoreovirinae, gênero Rotavirus, que é subdividido em grupos de A a H de acordo com a expressão da proteína VP6 no capsídeo. O grupo A é o único grupo identificado como causador de diarreia em mamíferos (incluindo os humanos e equídeos) (CALEFFO, 2017). Em microscopia eletrônica tem aspecto de roda (rota, em latim, significa roda) (CAROSSINO et. al., 2018).

É não envelopado, icosaédrico, RNA fita dupla e apresenta três camadas de capsídeo, nas quais cada camada expressa proteínas virais diferentes (Imagem 1) (CALEFFO, 2017).

 

Rotavirose em Potros 1
Imagem 1 – Rotavírus, esquema dos capsídeos e proteínas virais.
Fonte: CALEFFO (2017).

 

A identificação das proteínas virais (PV) e genótipos são através da sorologia, na qual se identifica, em equinos, seis sorotipos PV (PV1-4, PV6 e PV7) e sete sorotipos G (G3, G5, G6, G8, G10, G13 e G14). Um estudo em Kentucky evidenciou que os genótipos mais prevalentes são G3P e G14P em potros com diarreia (CALEFFO, 2017; CAROSSINO et. al., 2018). A proteína viral não estrutural NSP4 funciona como uma enterotoxina, responsável por gerar a diarreia (CALEFFO, 2017).

Em um experimento na argentina a proteína viral e genótipos mais encontrados foram respectivamente: VP4; G3, G14 e a mistura de G3 e G14 (GARAICOECHEA et. al., 2011). Uma pesquisa no Japão coletou 2018 amostras fecais no período de cinco anos (2003-2008) nas quais 1149 foram positivas para rotavírus (testadas por RT-PCR). Os genótipos encontrados foram semelhantes aos achados anteriores (G3, G14 e sua mistura) (NEOMOTO et. al., 2011).

Os equinos adultos apresentam, majoritariamente, anticorpos contra o rotavírus, podem ter rotavirose subclínica favorecendo a infecção aguda nos potros. Para ocorrer um surto deve ter cerca de 10¹¹ partículas/g de fezes, o vírus permanece ativo por até por até nove meses no ambiente (CALEFFO, 2017). Dessa forma é uma doença epidemiológica muito importante na medicina equina (GARAICOECHEA et. al., 2011).

A transmissão é via oro-fecal por meio direto (fezes) ou indireto (fômites), o período de incubação é curto (de uma hora até 24 horas). A patogenia ocorre da seguinte forma: os rotavírus infectam enterócitos maduros, se multiplicam no ápice das vilosidades na porção de duodeno, jejuno e íleo. Sua replicação ocorre no citoplasma destas células, por lise do eritrócito, o vírus vai para a luz intestinal e infecta mais eritrócitos, o processo descrito acontece em nível de mucosa (CALEFFO, 2017).

A rotavirose gera diminuição da permeabilidade da membrana celular, interrupções nas tight junctions entre os eritrócitos; alterando não só a permeabilidade da mucosa, como integridade e função epitelial. Com apenas 72 horas pós-infecção as vilosidades diminuem, ocasionando diarreia por má absorção (CALEFFO, 2017).

A principal manifestação clínica é a diarreia, que pode gerar a morte do potro por desidratação e suas consequências. Os potros mais jovens são mais suscetíveis, uma vez que tem organismo deficiente no controle hidroeletrolítico (ocasionando acidose, hipocloremia, hipocalemia e hiponatremia). Potros com até dez dias podem apresentar diarreia grave, anorexia, febre (até 41°C) e letargia (decúbito constante, relutância para mamar, respiração rápida e superficial). As manifestações são relatadas em potros de três dias a cinco meses de vida (CALEFFO, 2017).

A diarreia começa 4 a 12 horas após observação da letargia. As fezes são volumosas progridem de pastosas para líquidas, geralmente com grande quantidade de muco. Se a mucosa intestinal fica muito debilitada a produção de lactase diminui consideravelmente, gerando assim a diarreia severa, favorecendo um desequilíbrio osmótico. As partículas osmóticas ficam na luz, logo os íons eletrolíticos são direcionados para tal, levando consigo água. Isso justifica a diarreia e fezes cada vez mais líquidas (CALEFFO, 2017).

De acordo com Caleffo (2017) o diagnóstico é baseado no histórico do animal, sinais clínicos (supracitados) e testes laboratoriais. O padrão ouro é a microscopia eletrônica das fezes do potro acometido (para identificar o vírus), porém é muito onerosa. Outras técnicas utilizadas são: detecção, nas fezes, da proteína viral VP6; técnicas sorológicas (ezima-imuno ensaio – EIA/ELISA) e o PCR ou RT-PCR (teste da transcripção reversa da reação em cadeia da polimerase).

A rotavirose é auto-limitante, porém pode ser fatal para alguns potros. A terapia suporte deve ser instituída. Essa é baseada em soroterapia (para reestabelecer equilíbrio hidroeletrolítico e acidobásico), reposições de minerais e eletrólitos (embasada em uma hemogassometria para evitar a piora do quadro sistêmico); administração de glicose (caso o animal esteja hipoglicêmico); caso tenha infecção bacteriana secundária pode ser utilizado antibiótico (evitando evolução para sepse e piora do prognóstico) (CALEFFO, 2017).

A ingestão do colostro nas 1° horas de vida é extremamente importante, uma vez que esse contem imunoglobulinas contra os antígenos do rotavírus, garantindo a imunidade do potro. Dessa forma os potros que se alimentam tem melhor prognóstico e chance de limitar a infecção por si só. Vale ressaltar que potros com sinais de rotavirose devem ser separado dos outros (CALEFFO, 2017).

A prevenção é por meio de vacinação das fêmeas prenhes. A vacina é inativa e é administrada aos oito, nove e dez meses de gestação (terço final de gestação) (GARAICOECHEA et. al., 2011, CAROSSINO et. al., 2018). Dessa forma há garantia que o colostro apresentará as imunoglobulinas necessárias para proteger os potros. Além disso, potros saudáveis não eliminam o agente no ambiente. A vacinação apresenta ótimo custo benefício, comparado aos custos de tratamento, porém não abrange todas proteínas virais (CAROSSINO et. al., 2018).

Uma pesquisa no Japão testou dois genótipos (G3 e G14) em ratos de laboratório. As vacinas contra G3 e G14 foram eficientes contra o genótipo G3 e apenas a vacina G14 foi eficiente contra o genótipo G14, sendo que nenhuma das vacina foi eficiente para o genótipo G13 (NEOMOTO et. al., 2018).

Outras medidas profiláticas são: melhora no manejo sanitário (limpeza e desinfecção das baias – com compostos fenólicos, peroxigênio e peróxido de hidrogênio acelerado; isolamento por duas a quatro semanas do potro acometido; assepsia das éguas para o parto) e teste PCR das fezes após término da diarreia, para certificar ausência do vírus (CALEFFO, 2017).

Uma pesquisa em Kentuky (EUA) analizou 88 potros (com idade entre dois dias a 17 semanas) e evidenciou 34,6% com Rotavirose testados por RTPCR (real time chain reaction) (SLOVIS et. al., 2013).

Um estudo na Argentina identificou o rotavírus em 39% das fazendas pesquisadas, em 21% dos potros testados no período de 17 anos. Apesar do número de potros acometidos ser, relativamente pequeno, vale lembrar que o vírus vive muito tempo no ambiente. Esse estudo comprova a alta circulação do vírus entre as fazendas e sua prevalência, uma vez que mesmo com o passar dos anos o rotavírus ainda é prevalente. Dessa forma a medidas sanitárias são essenciais para o controle da rotavirose (GARAICOECHEA et. al., 2011).

Dessa forma o manejo sanitário correto é essencial para diminuir a prevalência da rotavirose em potros. É uma enfermidade que causa altos custos com medicações, além de apresentar potencial de se alastrar para todos os potros do plantel. Melhor prevenir do que remediar. Vale ressaltar que o ideal é consultar um veterinário para implementar as medidas de manejo e/ou tratar potros com rotavirose.

 

REFERÊNCIAS

CALEFFO T. Frequência de Lawsonia intracellularis e rotavírus em equinos criados no oeste paraná. Dissertação. Grau de Mestre em Medicina Veterinária, no Curso de Pós-Graduação em Ciência Animal, Setor de Palotina, da Universidade Federal do Paraná. Palotina, 2017.

CAROSSINO, M et. al. Detection, molecular characterization and phylogenetic analysis of G3P[12] and G14P[12] equine rotavirus strains co-circulating in central Kentucky. Virus Research, 255, 39–54. 2018.

GARAICOECHEA, L. et. al. Molecular characterization of equine rotaviruses circulating in Argentinean foals during a 17-year surveillance period (1992–2008). Veterinary Microbiology, 148(2-4), 150. 2011.

NEMOTO, M. et. al. Evaluation of inactivated vaccines against equine group A rotaviruses by use of a suckling mouse model. Vaccine, 36(37), 5551–5555. 2018.

NEMOTO, M. et. al. Molecular characterization and analysis of equine rotavirus circulating in Japan from 2003 to 2008. Veterinary Microbiology, 152(1-2), 2011.

SLOVIS, N. M., ELAM, J., ESTRADA, M., & LEUTENEGGER, C. M.. Infectious agents associated with diarrhoea in neonatal foals in central Kentucky: A comprehensive molecular study. Equine Veterinary Journal, 46(3), 311–316. 2013.

 

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