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Notícias Edição 5º Ano 2020

Sondagem Nasogástrica, Refluxo e seus Significados

Sondagem Nasogástrica, Refluxo e seus Significados 1
V.5, Ed.1, N.114(2020)

Sondagem Nasogástrica, Refluxo e seus Significados

 Letícia Moraes Tavares, 7° período, Universidade Paulista, São José dos campos.

 

A sondagem nasogástrica deve ser realizada em 100% dos equídeos com síndrome cólica, resolvendo cerca de 80 a 90% dessas. É o 1° passo complementar a ser realizado nesses casos, pertence à etapa de exames complementares (FEITOSA, 2014) e permite eliminação de gás e conteúdo estomacal (líquido ou fibroso), impede a ruptura gástrica, gera conforto imediato, estimula o reflexo gastro-cólico, acelera processo fisiológico do esvaziamento gástrico, facilita a administração de medicamentos (por exemplo: protetores gástricos) e tem fins diagnósticos (FRANCELLINO et. al., 2015).

Dessa forma a sondagem gera resultados imediatos que podem ajudar a fechar o diagnóstico e as causas da cólica. A seguir será apresentado brevemente quais tipos de sondas existem, anatomia relacionada, como deve ser inserida a sonda nasogástrica, os resultados, interpretações do refluxo e alguns dados sobre a sondagem nasogástrica.

A maioria das sondas nasogástricas é feita de polivinil, porém as sondas siliconadas são mais fáceis de serem passadas, lesionam menos a mucosa nasal do paciente e tem maior durabilidade.

Em casos extremos a sonda pode ser feita com mangueira de parede interna firme, porém dobrável.  Um kit completo de sondas contem 5 tamanhos (neonato, potro jovem, potro sobreano, adulto médio e adulto grande), apenas 3 tamanhos são necessários para um Veterinário a campo.

Algumas sondas comerciais vêm com marcação nos 40 cm (média do comprimento da narina até altura da golte) ou marcadas a cada 10 cm. Se a sonda for muito pequena em relação ao animal e/ou pouco rígida ela pode ser facilmente direcionada para outra narina ou para boca do cavalo (FEITOSA, 2014).

Anatomicamente a sonda passa ventral e medial no vestíbulo nasal, chega no meato nasal ventral, passa pela coana faríngea, nasofaringe, laringofaringe, entrada esofágica, esófago cervical, torácico, abdominal, cárdia e ventrículo ou estômago (Imagem 1) (GETTY, 2004; BUDRAS, SACK, RÖCK, 2011).

 

Sondagem Nasogástrica, Refluxo e seus Significados 2
Imagem 1 – Passagem da sonda nasogástrica anatomicamente. Fonte: BUDRAS, SACK, RÖCK, 2011 (adaptada).

Para realizar a sondagem deve-se conhecer a índole do animal, se for muito agitado ou apresentar dor extrema o cachimbo/pito não basta para sua contenção, é necessário realizar contenção química (xilasina, acepromaxina, detomidina e/ou romifidina).

Um estudo recente diz que a sondagem nasogástrica apensar de ser, muitas vezes, essencial para vida do animal também é considerada um alto risco ocupacional para veterinários. 123 veterinários de equinos responderam um questionário e a maioria relatou usar a boca para soprar ou sugar a ponta da sonda e ter acidentalmente engolido conteúdo estomacal e/ou medicamentos (DROZDZEWSKA, POTOCNIK, SCHWARZ, 2020).

A sonda deve ser lubrificada na ponta a ser inserida com, por exemplo. lidocaína em gel ou nitrofurazona. Ao utilizar a lidocaína deve-se evitar tentativas consecutivas de passagem da sonda, para que esse anestésico local não deprima o reflexo de deglutição. A sondagem deve ser delicada e precisa para evitar lesões e consequentemente edema da região de orofaringe e laringe, que podem dificultar a sondagem (FEITOSA, 2014).

Para realizar a sondagem nasogástrica a sonda deve ser direcionada para ventral e medial, para evitar introdução no divertículo nasal (que fica dorsal e lateral) (Imagem 2).

A inserção deve ser delicada e a curvatura da sonda deve acompanhar a da cabeça, sendo que para facilitar a cabeça do cavalo pode ser flexionada. Quando a sonda se aproximar da marca da glote deve-se soprar a fim de estimular a deglutição ou esperar que o cavalo a faça de maneira espontânea (pode demorar) (FEITOSA, 2014).

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Imagem 2 – Localização do divertículo nasal. Fonte: BUDRAS, SACK, RÖCK, 2011.

Para certificar, se a sonda estiver no esôfago ao sugar não obterá nada, se esta estiver na traqueia virá ar, essa técnica de confirmação é importante, pois não é sempre que o animal tosse quando a sonda está na traqueia e a observação dessa no lado esquerdo do pescoço é visível em cavalos com pouco musculatura na região, sendo difícil observar em cavalos de musculatura cervical desenvolvida (FEITOSA, 2014).

Alguns veterinários de cavalos utilizam alternativas para evitar colocar a boca na extremidade da sonda no ato de soprar ou sugar. São: uso de grandes seringas, bomba de sucção (ineficiente se o estômago estiver com partículas grandes) e alguns até relataram o uso de ultrassom abdominal para identificar o quanto de líquido estomacal havia antes e depois do refluxo espontâneo. A campo essas técnicas não são muito aplicadas (DROZDZEWSKA, POTOCNIK, SCHWARZ, 2020).

Em cavalos sadios a sonda passa pelo esfíncter cárdia normalmente, e o odor fermentado é sentido. Com estômago muito distendido essa passagem pode ser dificultada, nesse caso a lidocaína auxiliaria na abertura do cárdia (FEITOSA, 2014).

De acordo com Feitosa (21014) para o animal a porção de maior desconforto é a passagem pela narina, nessa fase pode ocorrer sangramento pela lesão na mucosa nasal ou lesão da região etmoidal. Quando o sangramento é originado da porção etmoidal ocorre hemorragia profusa, porém sem riscos ao animal apesar de ser desagradável quando o proprietário está próximo. Pode ser estancado com compressa, nunca deve-se retirar o coágulo formado e para continuar o processo recomenda-se esperar 10 minutos (tempo normal de coagulação em cavalos).

Como ferramenta diagnóstica deve-se considerar volume, coloração, aspecto, odor e pH para interpretação do refluxo obtido, além de indicar a origem do refluxo (Quadro 1).

A saída de muito gás pode indicar timpanismo gástrico ou de porção cranial do intestino; odor desagradável pode sugerir fermentação gástrica ou lentidão para esvaziamento. Um refluxo espontâneo de 5 a 10 litros induz a pensar em obstrução do intestino delgado ou duodenojejunite proximal. No último caso o líquido drenado tende a ser marrom avermelhado, com sangue oculto dependendo da inflamação da alça (FEITOSA, 2014).

A origem do refluxo pode ser determinada pelo pH desse. O pH normal do líquido gástrico é de 3 a 6 variando de acordo com a fonte de alimentação e tempo de ação do suco gástrico. O pH alcalino sugere origem de intestino delgado indicando uma obstrução ou inflamação de alças intestinais craniais (FEITOSA, 2014).

Quadro1 – Diferentes características do refluxo proveniente da sondagem nasogástrica de origem gástrica e intestinal.

Característica do Líquido ESTÔMAGO INTESTINO DELGADO
VOLUME Menor que 5 L Maior que 5 L
COR Verde ou marrom claro Castanho ao preto
 

ASPECTO

Partículas grosseiras, viscos, menos digerido, com ingesta  

Líquido, partículas finas

ODOR Sui generis, mais fermentado Fecal e pútrido
pH 3 a 6 (pH Ácido) 7 a 8 (pH neutro e alcalino)

Fonte: FEITOSA, 2014 adaptado.

Quando não há drenagem espontânea a lavagem gástrica pode ser feita colocando 5 litros por vez (FEITOSA, 2014), apesar do ventrículo apresentar capacidade de 8 a 15 litros (GETTY, 2004), ele já pode estar  repleto de conteúdo. O ideal é realizar com água morna (para estimular o peristaltismo) ou em temperatura ambiente, água fria pode gerar distensão abdominal por gás que é eliminado via flatulência (FEITOSA, 2014).

O refluxo em pós operatório de cólica ocorre em cerca de 10 a 47% dos cavalos, majoritariamente em animais com estrangulamento de alças, ressecções de intestino delgado durante a cirurgia, idosos e com hematócrito elevado. A taxa de óbito pode chegar até 86% (HOAGLUND, HESS e HASSEL, 2018).

O cavalo pode apresenta dor durante a lavagem gástrica, se isso ocorrer deve-se retirar o volume inicial e adicionar volumes menores. Caso o animal esteja desidratado o líquido colocado é absorvido com maior rapidez, resultando em drenagens menos volumosas. Quando o estômago está vazio grande quantidade de muco pode ser observada. A saída de Parascaris indica acometimento de intestino delgado (local de parasitismo desse helminto), sugerindo um prognóstico desfavorável (FEITOSA, 2014).

A sonda deve ser retirada com delicadeza direcionada para baixo (para evitar sangramentos), sempre ocluindo a ponta de fora (FEITOSA, 2014).

Segundo Drozdzewska, Potocnik e Schwarz (2020) os riscos da sondagem apontados pelo estudo foram: pneumonia aspirativa, infecção por Staphylococcus aureus, Salmonella sp. e/ou Clostridium difficile e suas toxinas (em animais com febre e diarreia ou formação de refluxo; utilização de sondas não desinfetadas), intoxicação (em cavalos envenenados, principalmente por rodenticida com fosfato de zinco por ser altamente volátil) e lesões traumáticas (não relacionadas ao conteúdo gástrico em si).

Vale ressaltar que a sondagem nasogástrica é um procedimento técnico que deve ser realizado por médicos veterinários aptos, pois qualquer erro pode ser fatal. É exame complementar de extrema importância para garantir a vida de cavalos com cólica, sendo o 1° ato a ser tomado evitando principalmente uma ruptura gástrica e consequente peritonite, choque e óbito do animal.

 

 

 

REFERÊNCIAS

FEITOSA F. L. F. Semiologia Veterinária: A arte do diagnóstico. 3ed. São Paulo: Roca, 2014.

FRANCELLINO J. R. et. al. Pronto atendimento de síndrome cólica em equinos: revisão de literatura.             Revista científica eletrônica da Medicina Veterinária. Editora FAEF. Ano XII. n° 25. Garça – SP. Jul. 2015.

GETTY R. D. V. M. Anatomia dos animais domésticos. 5 ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 2004.

HOAGLUND, HESS e HASSEL. Retrospective evaluation of the effect of intravenous fluid administration on development of postoperative reflux in horses with colic (2004–2012): 194 horses. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care 00(0). pp 1-7. 2018.

DROZDZEWSKA K., POTOCNIK E., SCHWARZ B. Nasogastric intubation as health and safety risk in equine practice – a questionnaire. Journal of Equine Veterinary Science. S0737-0806(20)30042-3. 2020.

BUDRAS K. D., SACK W. O., RÖCK S. Anatomy of the Horse. 6° ed.: Schlütersche Verlagsgesellschaft mbH & Co. KG., Hans-Böckler-Alle. Hannover, Germany. 7, 30173. 2011.

 

 

 

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