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Pênfigo Foliáceo em Equinos. Revisão de Literatura

Pênfigo Foliáceo em Equinos. Revisão de Literatura 1

INTRODUÇÃO

As funções exercidas pela pele são essenciais, pois, atua na proteção de diferentes agentes patológicos, regula temperatura corpórea e armazenamento de nutrientes, além de receber diversos estímulos sensoriais (Yu, 2013), e entre as doenças dermatológicas que acometem equinos está o pênfigo foliáceo, uma enfermidade autoimune rara, na qual ocorre uma reação por parte dos anticorpos aos ceratinócitos, causando lesões com crostas, emaranhamento do pelo, perca de peso, depressão, dentre outros sintomas. Por mais que seja uma doença pouco relatada, ela é a enfermidade autoimune que mais acomete os equinos (VANDENABEELE, 2004). Apresenta uma sugestiva preferência pela raça apaloosa, contudo não há uma predisposição por sexo ou raça. (REED, 2000, AOKI, 2005). As doenças autoimunes têm ocorrência em 5% dos humanos, e estimativa similar para animais domésticos, sendo o pênfigo foliáceo descrito em cães, caprinos, gatos e equinos. (TIZARD, 2014).

ETIOPATOGENIA

A etiopatogenia da doença inicialmente ocorre por uma ligação entre agentes do sistema imune com as células do organismo, havendo interação (não benéfica à pele do cavalo), do anticorpo ao glicocálice do ceratinócito (REED, 2000). Segundo Barbosa et al. (2012), é desenvolvida no animal a reação de hipersensibilidade tipo II, com presença de IgG, após a ligação entre antígeno e anticorpo, é ativado a liberação do fator de ativação do plasminogênio (Zimógeno), que se converte em plasmina que quebra as moléculas de adesão, resultando na formação de espaços intraepidérmicos, levando a ancatólise que é a perda de coesão entre as células com formação de vesículas. Essas vesículas são subcorneais (abaixo da camada córnea) ou intraepidérmicas, ativam o sistema complemento, em que as anafilatoxinas C3a e C5a desgranulam mastócitos, causando a liberação de histamina que é o principal peptídeo vasoativo, sendo um fator de quimiotaxia de eosinófilos e neutrófilos, encontrados dentro das vesículas intradérmicas, que causam as bolhas e pústula (BARBO, 2012). Nos desmossomos, que são ligações que mantêm as células da pele juntas (BANKS, 1992) estão contidas proteínas que são consideradas os principais antígenos da doença, o corpo então produz anticorpos anti desmossomais fazendo com que as junções celulares se desfaçam e forme aspecto escamoso com formatos de folha, motivo do nome Pênfigo Foliáceo (FERNANDES, 2009; BARBOSA,2012). Estudos comprovam que a exposição prévia a insetos como os Simuliidae (Figura 1), é um fator predisponente para o desenvolvimento da doença, bem como o uso de anti-helmínticos, e a associação de alguns tipos de antibióticos, associação tal que aumenta o risco da doença em cães e humanos, é considerável que possa ocorrer também em equinos. Fatores que causam queda de imunidade como doenças sistêmicas e estresse podem ser acrescentados também como fator agravante da doença, uma vez que queda da imunidade representa depressão do sistema imune, sistema tal que é responsável pelo acontecimento da doença (BRENNER, 1998; VANDENABEELE, 2004).

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Figura 1: Estruturas de S. fulvinotuni. Fonte: Gorayeb, 1968. (Pênfigo Foliáceo em Equinos)

SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos geralmente são lesões caracterizadas com formação de vesículas, pústulas e crostas (Figura 2), seborreia, acompanhados de perda de peso, depressão e febre, podendo ser observado o emaranhamento do pelo acompanhado de exsudações, dor no tronco e extremidades distais, claudicação, coceira, linfadenopatia e edema ventral (KNOTTENBELT, 1998; REED, 2000)

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Figura 1. Pênfigo foliáceo em equino. Observa-se a formação de crostas acentuadas na pele do animal. Fonte: REED, 2000. (Pênfigo Foliáceo em Equinos)

 

Em um periódico publicado pela a revista The Veterinary Record, pesquisadores Europeus e Americanos fizeram o diagnóstico de 15 equinos, tendo idade média de 9 anos, com pênfigo foliáceo, usando métodos clínicos e exames específicos para avaliação de diagnósticos diferenciais iguais para cada animal, sendo que a maioria deles apresentou formação de crostas, alopecia, alterações que foram observadas em maior quantidade na face, tronco e pescoço e também parte dos animais apresentaram tais sintomas em extremidades, outro prurido, e algumas outras pústulas (ZABEL, 2005). No Brasil, em dois casos descritos, foram encontrados sintomas semelhantes aos descritos, os quais são alopecia, crostas na face, exsudação e prurido, em uma égua sem raça definida, e em um cavalo da raça árabe, que apresentava perda de peso, edema de região ventral, lesões na pele por todo corpo (MONTEIRO, 2006; FILHO, 2007).

DIAGNÓSTICO

O diagnóstico definitivo é feito por biopsia de pele da área com crostas, através de achados histológicos, sendo tais achados acantólise intra granular a sub-corneal, podendo ocorrer infiltrado de neutrófilos no local das lesões (REED, 2000). Pode ser realizado ainda pelo médico veterinário caso o mesmo considere necessário, procedimento clínico realizado por Filho et al. (2007), exames complementares como hemograma para análise de possíveis alterações como anemia, neutrofilia, leucocitose, entre outras alterações, e também o exame bioquímico, para a avaliação de possíveis alterações dos perfis hepáticos, renais e musculares, pela avaliação de proteínas. Mesmo não sendo recomendado o uso da imunofluorescência indireta para diagnóstico de pênfigo foliáceo (SCOTT, 1984), tal exame complementar pode ser contribuinte ao diagnóstico (ROTHWELL, 1985; SCOTT e MILLER, 2003; STAHLI, 2005). Para um exame correto e profissional, é recomendável a coleta de material recente e intacto para a biopsia. Deve-se considerar para o diagnóstico diferencial a dermatofilose, sarcoidose equina, lupo eritematoso sistêmico, dermatite esfoliativa e dermatofitose (REED, 2000; KNOTTENBELT, 1998; FADOK, 1995).

O tratamento consiste no uso de anti-inflamatórios (REED, 2000) e outros medicamentos e procedimentos clínicos, caso o médico veterinário considere necessário. De acordo com TIZARD (2014) o pênfigo foliáceo é o subtipo que tem um prognóstico mais satisfatório em relação às demais patologias do complexo (vulgar, paraneoplásico, bolhoso). O pênfigo foliáceo requer tratamento de longo prazo, tendo melhores resultados em potros, sendo que uma vez diagnosticado, o animal poderá se submeter aos medicamentos ao longo da vida, o que faz muitos proprietários optar por eutanásia (REED, 2000). Não existe prevenção por vacinação, ou melhoras no quadro por mudanças de manejo.

 CONCLUSÃO

Percebemos assim que dermatopatias em geral podem trazer dificuldades tanto para a própria saúde dos animais, sendo porta de enteada inclusive para doenças secundárias como na utilização dos animais em provas equestres devido a aparências, além de perdas econômicas com o custo do tratamento. Visto isso, é de suma importância que o tutor procure um veterinário de equinos para maiores esclarecimentos sobre a doença e solicitar uma avaliação periódica da tropa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS

 

  1. AOKI, V. et al. A.Perfil histórico da imunopatogenia do pênfigo foliáceo endêmico (fogo selvagem). Anais brasileiros de dermatologia, vol. 80 Junho, 2005.
  2. BANKS J. W. Histologia aplicada à medicina veterinária. 2 edição, São Paulo: Manole 1992. 629 p.
  3. BARBOSA, M.V.F. Patofisiologia do pênfigo foliáceo em cães: revisão de literatura. Medicina Veterinária, v.6, n.3, p.26-31, set. 2012.
  4. BRENNER, S.; BIALY-GOLAN, A.; RUOCCO, V. Drug-induced pemphigus. Dermatol., v.16, p.393-397, 1998.
  5. FADOK, V.A.  An overview of equine dermatoses characterized by scaling and crusting.   Clin. North Am. Equine Pract. v.11, p.43-51, 1995.
  6. FERNANDES, D.F. Pênfigo Foliáceo em cães. 2009. 40 f. Tese de Trabalho de Conclusão de Curso – Graduação em Medicina Veterinária, Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto 2009.
  7. FILHO, J. P. O. et al. Pênfigo foliáceo em equino: relato de caso. Bras. Med. Vet. Zootec., v.59, n.5, p.1132-1136, 2007.
  8. Gorayeb, s. Comportamento de ovoposição e ciclo evolutivo de Simulium fulvinotum (Diptera, Nematocera), Cerq. e Melo.11 (3). 1968.
  9. KNOTTENBELT, C. D.; PASCOE, R. R. Afecções e distúrbios do cavalo. 1 edição, São Paulo: Manole 1998. 432p.
  10. MONTEIRO, G. A. et al.Pênfigo foliáceo em um equino. Ciência Rural, Santa Maria, v.37, n.2, p.594-598, mar-abr, 2007.
  11. REED, M.S; BAYLY, M. W. Medicina interna equina. 1 edição,  Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2000.
  12. ROTHWELL, T.L.W.; MERRIT, G.C.; MIDDLETON, D.J. et al. Possible pemphigus foliaceus in a horse. Aust. Vet. J., v.62, p.429- 430, 1985.
  13. SCOTT, D.W.; MILLER, W.H. Jr. Equine dermatology. St Louis: Saunders, 2003. 823p.
  14. SCOTT, D.W.; WALTON, D.K.; SMITH, C.A. et al. Pitfalls in immunofluorescence testing in dermatology. III. Pemphigus-like antibodies in the horse and direct immunoflurescence testing in equine dermatolophilosis. Cornell Vet., v.74, p.305-311, 1984.
  15. TIZARD R. I. Imunologia veterinária. 9 edição, Rio de Janeiro: Elsevier 2014. 551p.
  16. VANDENABEELE, S. et al. Pemphigus foliaceus in the horse: a retrospective study of 20 cases.Veterinary dermatology 15(6). p.381-388, 2004
  17. YU A.A Equine Pastern Dermatitis. Clin. of Nor. Ame.: Equine Practice. 29. (3). 577-588. 2013.
  18. ZABEL,S et al. Review of 15 cases of pemphigus foliaceus in horses and a literature review.The Veterinary Record,22 de outubro de 2005; 157 (17): 505-9.

 

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