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Relato de Caso Edição 5º Ano 2020

Encarceramento de Intestino Delgado em Forame Epiploico em Equino do Pelotão de Policia Montada do Estado do Paraná – Relato de Caso

Encarceramento de Intestino Delgado em Forame Epiploico em Equino do Pelotão de Policia Montada do Estado do Paraná - Relato de Caso 1
V.5, Ed.1, N.98 (2020)

ENCARCERAMENTO DE INTESTINO DELGADO EM FORAME EPIPLOICO EM EQUINO DO PELOTÃO DE POLICIA MONTADA DO ESTADO DO PARANÁ- Relato de Caso

Denilton Vidolin1, Patrik Rogeski 2
1 Médico Veterinário, Universidade Estadual de Ponta Grossa.; 2 Médico Veterinário, Polícia Militar do Estado do Paraná, Pelotão da Polícia Montada do 1º Batalhão.

 

RESUMO – A síndrome de abdômen agudo é avaliada como emergência na medicina equina, sendo a principal causa de óbitos em equinos adultos. Dentre os quadros clínicos que causam cólica temos o encarceramento do intestino delgado em forame epiploico. O forame epiploico é uma abertura natural na cavidade torácica que faz comunicação com a cavidade abdominal.

Equinos diagnosticados com encarceramento de alças intestinais em forame epiploico necessitam de tratamento cirúrgico o mais rápido possível tendo um prognóstico de reservado a desfavorável. Episódios de cólicas anteriores ao encarceramento e aerofagia parecem ser os fatores com maior correlação com casos de encarceramento de intestino em forame epiploico.

Animais machos e de grande porte também podem ser mais pré-disponíveis à enfermidade. Discute-se que a idade pode ser um fator predisponente, sendo que o encarceramento ocorre com maior frequência em animais mais velhos. O caso relatado neste trabalho ocorreu em um animal que não apresentava hábito de aerofagia e durante os sete anos que permaneceu na cavalaria nunca apresentou episódio de cólica.

PALAVRAS-CHAVE: cólica, cavalo, íleo.

ABSTRACT – The acute abdomen syndrome is evaluated as an emergency in equestrian medicine, being the main cause of death in adult horses. Among the clinical conditions that cause colic are the incarceration of the small intestine in the epiploic foramen. The epiploic foramen is a natural opening in the thoracic cavity that communicates with the abdominal cavity.

Horses diagnosed with incarceration of intestinal loops in epiploic foramen require surgical treatment as soon as possible, with a prognosis of reserved to unfavorable. Colic episodes prior to incarceration and aerophagia seem to be the factors with the highest correlation with cases of intestinal incarceration in the epiploic foramen.

Male and large animals may also be more prone to the disease. It is argued that age may be a predisposing factor, with incarceration occurring more frequently in older animals. The case reported in this study occurred in an animal that did not show the habit of aerophagia and during the seven years that it remained in the cavalry never presented episode of colic.

KEY WORDS: colic, horse ileum.

 

INTRODUÇÃO

Na medicina equina a síndrome cólica é considerada uma emergência e é uma das maiores causas de óbito nestes animais (Southwood, 2013). Cólica é o nome dado a um conjunto de doenças do sistema gastrintestinal que causam processos dolorosos, inflamatórios, isquêmicos e necróticos (White e Edwards, 1999). As causas de cólicas dividem-se em estrangulativas e não-estrangulativas, sendo que o encarceramento do forame epiploico (EFE) enquadra-se nas causas estrangulativas (White, 1990).

O encarceramento no forame epiploico, também conhecido como hérnia de Winslow, é o segundo processo mais comum de lesão por estrangulação de intestino em equinos submetidos à procedimento cirúrgico. O EFE corresponde de 5 a 7,7% dos casos cirúrgicos, 14 a 19% dos danos de intestino delgado e 2,1 a 8,4% dos casos de cólicas (Archer et al., 2004b; Freeman, 2012).

O forame epiploico possui entre quatro e seis centímetros de comprimento e está situado na porção crânio-dorsal direita do abdômen, sendo delimitado pelo fígado, pâncreas, veia cava caudal, veia porta, estômago e duodeno (Freeman e Pearn, 2015).

O forame epiplóico une-se à bursa omental com a cavidade peritoneal (Vachon e Fischer, 1995; Schmid, 1997; Mueller et al., 2008; Freeman, 2012; Freeman e Pearn, 2015). Por anos, casos do EFE foram associados à compressão do lobo caudal do fígado decorrente do avanço da idade, o que proporcionaria consequente aumento do forame epiploico uma vez que o lobo caudal é um delimitante anatômico dessa estrutura (Livesey et al., 1991; Engelbert et al., 1993).

Equinos a partir de seis anos de idade têm sido apontados como mais predispostos a herniação em forame epiploico devido à atrofia no lobo caudal direito do fígado, que aumenta o espaço do forame e a probabilidade de insinuação de uma alça de intestino delgado (Southwood, 2006; Auer e Stick, 2018).

O encarceramento está relacionado a fatores como estresse, ansiedade, aerofagia, método de desmame e alimentação (Archer et al., 2004). Os sinais clínicos são variáveis e podem progredir para alterações sistêmicas (Freeman & Pearn, 2015).

Cavalos acometidos com EFE nem sempre apresentam sinais típicos de cólica estrangulativa do intestino delgado, alguns equinos exibem somente dor, de moderada a severa, ou têm refluxo entero-gástrico. Alguns animais não exibem sinais clínicos, além de não apresentarem achados clínicos na palpação trans-retal (Archer et al., 2008).

Nos casos de encarceramento no forame epiploico, o tratamento é cirúrgico com prognóstico variando de reservado a desfavorável. O grau de estrangulamento e necessidade de ressecção de alça também influenciam no prognóstico (Southwood, 2013).

Poucos relatos sobre esta enfermidade têm sido feitos no Brasil. O hospital de equinos da Cavalaria da Polícia Militar do Rio Grande do Sul registrou três casos em quatro anos de atendimento clínico-cirúrgico (Pulz et al., 2004). O objetivo deste trabalho é relatar um caso de encarceramento de alças intestinais em forame epiploico em um equino pertencente ao Pelotão de Policia Montada do Estado do Paraná situado na cidade de Ponta Grossa, Estado do Paraná.

 

RELATO DO CASO

No dia 30 de abril de 2020 foi atendido um equino macho, castrado, sem raça definida, de 19 anos de idade com aproximadamente 550 quilos pertencente ao Pelotão de Policia Montada do Estado do Paraná situado na cidade de Ponta Grossa.

Através da auscultação constatou-se que o intestino delgado se encontrava com hipomotilidade e os demais quadrantes em hipermotilidade, os batimentos cardíacos encontravam-se alterados (60 batimentos por minuto), a frequência respiratória também se apresentava fora da normalidade (28 movimentos respiratórios por minuto) e a temperatura estava dentro dos parâmetros normais (37,5°C).

Foi realizado procedimento de sondagem nasogástrica com retirada de grande quantidade de feno de alfafa do seu estômago. Fármacos de escolha foram administrados para minimizar a dor do animal e diminuir o timpanismo cecal do equino. O animal encontrava-se com 7% de desidratação sendo realizado procedimento de reposição hídrica por fluidoterapia com Ringer Lactato, utilizando-se 20 litros de fluido.

Após esse procedimento o animal foi submetido a exercícios físicos para estimular a movimentação e transito intestinal. Ocorreu eliminação de fezes por duas vezes, as cíbalas apresentavam coloração escura. Também ocorreu eliminação de gases por diversas vezes.

Após esse procedimento o animal apresentou uma melhora considerável, permaneceu em estação, não apresentou interesse em alimentar-se e foi solto em um piquete amplo com outro animal. Nova auscultação abdominal foi realizada e avaliou-se que o intestino delgado continuava em hipomotilidade e que houve uma melhora nos demais quadrantes.

O cavalo permaneceu durante cerca de duas horas em posição de micção com cauda em bandeira alternadamente com posição normal. O animal ficou em decúbito e olhando paro o flanco esquerdo, após cerca de 30 minutos nessa posição levantou-se e encontrava-se com bastante sudorese e fasciculação. Verificou-se hipotermia (36° C), congestão de mucosa com presença de halos endotoxênicos ao redor dos dentes incisivos, alteração de batimentos cardíacos e movimentos respiratórios.  Uma tentativa de paracentese foi realizada, porém sem êxito.

Com aumento do quadro de dor o animal foi sedado e não tendo a possibilidade de realização de cirurgia, a eutanásia foi a melhor opção, pensando-se no bem-estar do animal. Na necropsia foi constatado o encarceramento do intestino delgado em forame epiploico (fig. 1).

Encarceramento de Intestino Delgado em Forame Epiploico em Equino do Pelotão de Policia Montada do Estado do Paraná - Relato de Caso 2
Figura 1. Infarto da alça de jejuno encarcerada.

DISCUSSÃO

O encarceramento em forame epiploico parece ser mais prevalente em machos conforme relatado por Archer et al. (2004b) e Alonso et al. (2018) como é o caso do animal descrito neste trabalho., Alonso et al. (2018) relataram quatro estudos de caso de EFE no Brasil, sendo que três deles ocorreram em machos. Ainda corroborando com os dados de Archer et al. (2004b) e Alonso et al. (2018) o caso de EFE hora citado ocorreu no período de outono.

Os casos ocorridos na literatura supracitada ocorreram nos períodos de outono e inverno tanto no hemisfério norte quanto no hemisfério sul. Outro fator que corrobora com a literatura é a estatura do animal, sendo mais comum em animais de maior porte.

O animal a que esse caso se refere apresentava 1,62 metro de cernelha, sendo, portanto, um animal de grande porte. A altura de cernelha é um fator associado com o EFE mais que a raça do animal em si (Archer et al., 2004b).

De acordo com Archer et al. (2008) parece haver uma relação positiva entre histórico de cólicas anteriores e o quadro de EFE. Tal relação não foi observada no presente caso. O animal estava a sete anos na cavalaria sem nunca ter apresentado episódio de cólica. Este resultado é compatível com o observado por Alonso et al. (2018) que de quatro animais que apresentaram EFE apenas um apresentou histórico de cólica nos 12 meses anteriores à análise.

Alguns estudos relacionam a ocorrência de EFE a um histórico de aerofagia (Alonso et al., 2018; Archer et al, 2004a; Archer et al., 2008). O estudo de Freeman e Pearn (2015) sugere que a aerofagia leve a uma abertura da Bursa omental devido à tração do estômago através do ligamento gastrofrênico.

Albanese et al. (2013) sugere mudança na pressão intra-abdominal causada pela aerofagia. Tal mudança poderia contribuir par a expansão do forame e insinuação do intestino delgado levando ao quadro de EFE. Contudo, para o presente estudo não foi observado o hábito de aerofagia no animal que desenvolveu EFE.

O encarceramento ocorreu da esquerda para a direita no animal do presente estudo o que parece ser mais comum, uma vez que de 71 casos de EFE descritos por Archer et al. (2004b) 69 ocorreram da esquerda para a direita. No estudo de Archer et al (2004b) foram observados 17 casos de aprisionamento de íleo, 30 casos de jejuno e íleo e 24 casos de aprisionamento de jejuno. O caso relatado neste trabalho apresentou aprisionamento de íleo. A necropsia revelou que grande parte do íleo estava comprometida.

 

CONCLUSÃO

            Apesar da literatura apontar a aerofagia e episódios de cólicas anteriores como fatores de maior correlação com EFE, o animal do caso aqui relatado nunca apresentou episódios de cólica e não tinha o hábito de aerofagia. Tais resultados demostram que alguns animais podem desenvolver quadro de EFE mesmo que os fatores de predisposição estejam ausentes.

 

REFERÊNCIAS

 

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