Info Equestre
Artigos Edição 4° Ano 2019

Comportamentos estereotipados em equinos de hipismo clássico

Comportamentos estereotipados em equinos de hipismo

Ed:1 V.5, N10

Comportamentos estereotipados em equinos de hipismo clássico

Stereotyped behaviors in jumping classic horses

Lílian Hélen Vidal Pires1, Natália Rebouças Pires2

[1] Veterinária em Clínica Médica de Equinos. Sociedade Hípica Brasileira. Rua Jardim Botânico, 421 – Bairro Jardim Botânico. 22470-050 – Rio de Janeiro – RJ. E-mail: lilianhelenveterinaria@hotmail.com

[2] Mestre em clínica cirúrgica de grandes animais pela Universidade Federal Fluminense, Doutoranda em Clínica e Reprodução Animal pela Universidade Federal Fluminense. Docente da disciplina de Clínica de Equinos da Universidade Castelo Branco. E –mail: nreboudas@infolink.com.br

 

 

INTRODUÇÃO 

A Interação homem x cavalo trouxe grandes benefícios à trajetória da humanidade, apesar da domesticação tardia, representou importante papel nas conquistas do homem e na formação de civilizações. O homem passou a usá-lo como meio de tração, lida no campo, esporte e lazer. 

Esta interação foi se desenvolvendo e rapidamente o cavalo ganhou abrigo e consequentemente distanciamento de predadores naturais.

Entretanto, houve malefícios associados à domesticação, tais como: isolamento, tédio, ausência de pastejo e alimentação peletizada, diminuindo a quantidade de forragem.1 Tais mudanças causaram alterações comportamentais significativas que serão abordadas neste artigo.  

É importante que questões pertinentes ao bem-estar equino e comportamento sejam abordadas como enfermidades psíquicas.

O bem-estar é o equilíbrio adquirido pelo animal em relação ao meio onde habita2. Este fato pode ser mensurado através de parâmetros comportamentais, endócrinos, clínicos e fisiológicos, porém, neste estudo, priorizou-se a análise comportamental baseada em fatores anormais indicadores de estresse conhecidos como vícios de comportamento, vícios de estabulagem ou estereotipias comportamentais, tais como lambedura de objetos, que se trata de uma estereotipia na qual o animal lambe o cocho depois de alimentado, ou sem motivos aparentes 3.

Outro vício analisado foi a mordedura de objetos, em especial a madeira. É um ato não bem definido como um comportamento anormal de animais encocheirados, sendo este executado, por muitas vezes, devido à ausência de uma fibra mais palatável.1, 4 Acredita-se ainda que os equinos sentem prazer ao morder madeira, isso explica o fato das repetições da estereotipia, que levaria à liberação de endógenos opiáceos gerando grande satisfação.5 

A coprofagia, é o ato de comer fezes, comum em potros, e que pode ser considerada estereotipia quando vista em animais mais velhos.

1 Já a aerofagia, é um vício de difícil correção associado às cólicas gasosas, problemas dentários e úlceras gástricas. Ao praticá-la o indivíduo posiciona os dentes incisivos em uma superfície de apoio flexiona e arqueia o pescoço projetando-o para trás, emitindo um som característico.

A aerofagia também pode ocorrer sem apoio em uma superfície.5,6,7 Movimentos repetidos de cabeça são caracterizados pelo ato de balançar a cabeça em um movimento semelhante ao “sim”, já a agressividade é vista pelo mesmo autor como atitudes de escoicear outras pessoas e/ou animais.

1 Vícios de língua e bater os lábios, são vistos respectivamente quando o animal projeta a língua para fora da boca de forma contínua, e o outro quando emitem ruídos desagradáveis com os lábios, também chamado de quebra nozes, sendo ambos de difícil correção.

7 Dança de urso consiste em balançar de um lado para o outro, tanto a cabeça quanto o pescoço e os quartos dianteiros, por vezes, os quartos traseiros também.8 Muitas vezes este comportamento esta relacionado a movimentos aleatórios repetitivos na baia, como andar em circulo.

9 Comportamento de fuga se trata do ato onde o animal sempre tenta fugir de sua cocheira. Já movimentos aleatórios repetitivos na baia referem-se aos atos como escoicear parede, empinar dentro da cocheira, rodar dentro da baia e bater membro contra o chão e podem estar associados a outras estereotipias, como mencionado anteriormente.1 A automutilação ocorre principalmente em garanhões, sem predisposição racial.5 

Por tratar-se de temática relevante, conforme apontado em estudos prévios, o objetivo desse estudo é avaliar a incidência de comportamentos estereotipados em equinos de Hipismo Clássico.

MATERIAIS E MÉTODOS 

  O presente estudo foi realizado através de pesquisa observacional e investigativa baseada em questionários. Foram observados 34  cavalos de Hipismo Clássico de diferentes raças, alojados na Sociedade Hípica Brasileira (SHB), no Rio de Janeiro.  

O grupo era composto por 15 machos castrados, 15 fêmeas não gestantes e  4  machos inteiros escolhidos aleatoriamente em um grupo de 300 cavalos, sendo a rotatividade muito grande.

O período do estudo foi de julho a outubro de 2015 e os dados coletados através de observação dos animais dentro da cocheira, que durava em média 15 minutos,  de longe, para que não despertasse curiosidade.

Além disso, questionário com perguntas sobre manejo geral foi direcionado aos tratadores dos animais (Figura 1).

Fig.1Ficha de observação comportamental de equinos destinados a atividade de Hipismo clássico, objetivando identificar vícios de encocheiramento.  

 

Local : ___________________________________  Data: ___________________________ 

1) Nome do tratador/ Número/Local que trabalha/ Quantas horas diárias passa com o cavalo ? __________________________________________________________________________ 

2) Nome do animal:___________________________ Número :_________ 3)Idade:______ 

4) Sexo:___________ 5) Raça:_____________________________6) Escore 1 a 5________ 

7) Trabalho que desempenha/ Horas / ( tudo que faz durante o dia como , caminhada , picadeiro, salto, patrulha, corrida ) __________________________________________________________________________ 

8) Horário de alimentação / tipo / porção / usa sal mineral __________________________________________________________________________

9) Criação: 

  1. a) Sistema intensivo  
  2. b) Sistema semi-intensivo (explique) _____________________________________________ 
  3. c) Sistema Extensivo  

10) Instalações: 

  1. a) Há cama para o animal se espojar ? Caso sim. Qual tipo de cama e frequência com que é trocada ____________________________________________________________________________ 
  2. b) Tamanho da baia ______________  
  3. c) Janela , caso tenha , qual tamanho ?_____________________________ Ela proporciona comunicação visual ou física com a baia ao lado? ____________________________________________________________________________

11) Quanto tempo fica solto em piquetes?  __________________________________________

12) Alterações comportamentais:  

  1. a) Vícios de língua  b) Bater lábio  c) automutilação  
  2. d) Coprofagia     e) Mordedura de objetos na baia     f) Lambedura  
  3. g) Aerofagia      h) Movimentos repetitivos de cabeça     
  4. i) Agressividade ( qual tipo ?) ___________________________________________________
  5. j) Dança de urso   l) Movimentação dentro da baia ( galope, Bater o membro contra o chão, cavar, empinar ) _____________________________________________________________________________

13) Quanto tempo é tratador deste animal? __________________________________________

14) Qual  Incidência de cólica no último ano? ________________________________________ 

15) Foi submetido, ou esta sendo, a algum tipo de mudança no manejo com o objetivo de correção deste desvio comportamental?  

  1. a) (   ) Sim       b) (   ) Não        c) (   ) Sim, sem resposta         d) (   ) Sim, com resposta 

Caso sim, explique:_____________________________________________________________ 

16) Outras observações:__________________________________________________________ 

RESULTADOS 

A idade dos animais variou entre 5 a 18 anos, (média de 11 anos) e escore corporal entre 2,5 e 4,5 (média 3,2) em uma escala que varia de 1 a 5, segundo Magalhães.10

Os animais se encontravam em sistema intensivo, alojados  em cocheiras que variavam de 2,90 x 3,60 m a 3,50 x 3,90 m, sempre com cama composta de serragem. 

       Em relação ao  trabalho que desempenhavam, dos  34 animais analisados,  foi  questionado o período de trabalho, a quantidade de tempo diário que exerciam as atividades,  juntamente com a quantidade de vezes que saiam de suas cocheiras. 

O tempo de trabalho diário variou entre 30 a 60 minutos, 1 a 3 vezes ao dia, e descanso de suas atividades  uma vez por semana.

      A alimentação dos animais era fornecida 3 vezes ao dia, sendo a primeira em um horário que variava de 5:00h às 7:00h da manhã, composta por ração peletizada.  No segundo horário, às  12:00h, os animais se alimentavam de feno ou alfafa, a terceira e última alimentação era fornecida entre 15:30 a 18:30h, quando os animais se alimentavam de feno ou alfafa,  seguido de capim e ração peletizada além de cenoura picada.

Houve incidência de cólicas relatada pelos tratadores em 10 animais, sendo que 6 apresentaram 1 ou 2 episódios e 4 apresentaram mais de 2 episódios em um período de um ano. Dos 4 animais praticantes de aerofagia 2 apresentaram cólica de 1 a 3 vezes durante este período.

Em relação à quantidade de estereotipias encontradas nos animais desse estudo, apenas 3 (8,8%) não apresentaram comportamentos anormais, 5 (14,7%) apresentaram 1 estereotipia cada, 11 (32,3%) animais apresentaram 2 estereotipias, 7 (20,5%) animais demonstraram 3 vícios, 4 (11,7%) demonstraram 4 estereotipias comportamentais e 4 (11,7%) apresentaram 5 vícios de comportamento.

Foi avaliado o período em que o animal saía de sua cocheira para trabalho, dado relevante para o desenvolvimento de estereotipias, obtendo-se os seguintes resultados: dos 34 animais analisados, 4 (11,7%), se encontravam fora do trabalho montado típico (trote, galope, salto, caminhar montado) por recomendação médica (grupo 0), porém todos são participantes de atividade de hipismo clássico, e segundo a orientação veterinária, poderão voltar ao trabalho posteriormente. 

Os demais animais, praticavam atividades comuns entre si, como, trote, galope, caminhar montado diariamente e salto a cada 7 dias, e todos descansavam 1 vez por semana, com exceção de 1 animal (grupo 7),  que exercia atividades de trabalho 3 vezes por semana 3 vezes ao dia.

Dos 30 animais em atividade, o trabalho era executado da seguinte forma: 4 (11,7%)  animas trabalhavam de 30 a 40 minutos, (grupo 1). Havia 4 (11,7%) animais que trabalhavam de 40 a 50 minutos uma vez ao dia (grupo 2). 2 (5,8%) indivíduos trabalhavam uma vez ao dia entre 45 a 60 minutos (grupo 3). 

7 (20,5%) animais trabalhavam de 30 a 40 minutos pela manhã e caminhavam puxados de 15 a 20 minutos à tarde, (grupo 4). 9 (26,4%) equinos trabalhavam de 40 a 50 minutos no período da manhã e caminhavam puxados de 10 a 30 minutos no período da tarde (grupo 5). 3 (8.8%) animais  trabalhavam 60 minutos pela manhã e a tarde caminhavam puxados de 10 a 20 minutos (grupo 6).

Por fim, 1 (2,9%) animal trabalhava 3 vezes ao dia, por 3 dias semanais durante 40 minutos, nos dias em que não trabalhava era solto no picadeiro por 20 minutos (grupo 7).

  Com relação aos vícios de estabulagem, 19 (55,9%)  animais tem o hábito de morder objetos na baia, sendo a madeira o mais frequente. A agressividade (morder e escoicear outras pessoas e/ou animais) esteve presente em 16 (47,5%)  animais estudados, seguido de movimentos repetidos de cabeça, que atingiu 15 (44,2%)  indivíduos.

O hábito de lamber cocho ou outros objetos representaram 12 (35,3%) casos, seguindo de aerofagia presente em 4 (11,8%)  animais, vícios de língua em 4 (11,8%) indivíduos e coprofagia, em 4 (11,8%)  animais.

A dança de urso, os movimentos aleatórios repetitivos dentro da baia, assim como o comportamento de fuga, apresentaram-se igualmente em 3 (8,8%)  animais cada uma, seguido do hábito de bater um lábio contra o outro produzindo um som característico, conhecido como quebra nozes, foi evidenciado em 2 (5,8%) animais (Tabela 1). 

Tab.1 – Estereotipias encontradas em equinos de hipismo clássico estabulados na Sociedade Hípica Brasileira, no período de julho a outubro/ 2015

 

                                              Estereotipias n(%)
Mordedura de objetos na baia  19(55,9%)
Agressividade  16(47,05%)
Movimentos repetidos de cabeça  15(44,2%)
Lambedura de objetos   12(35,3%)
Aerofagia   4(11,8%)
Vícios de língua   4(11,8%)
Coprofagia   4(11,8%)
Dança de urso  3(8,8%)
Movimentos aleatórios repetitivos na baia  3(8,8%)
Comportamento de fuga  3(8,8%)
Bater lábio (quebra nozes) 

Total de estereotipias encontradas:

2(5,8%)

85 

 

DISCUSSÃO

Estes resultados superaram os comportamentos anormais vistos nos estudos de Leal3, para o grupo RCAT 2 , representado por animais de esporte em sistema intensivo, que apresentou mordedura de objetos em 2 (7,4%) animais, coprofagia em 2 (7,4%), 0 resultados para lambedura de cocho, 1 (3,7%) para aerofagia, 5 (18,5%) para movimentos repetidos de cabeça, 1 (3,7%) para  dança de urso e 2 (7,4%) para movimentos aleatórios repetitivos.

Em sequência, as análises de Gontijo11 destinado a equinos de policiamento, também mostraram resultados inferiores aos encontrados nesta pesquisa, onde foram encontrados os seguintes resultados: 0 para aerofagia, dança de urso, lamber cocho e morder objetos, já a agressividade esteve presente em 4 (13,3%) indivíduos, coprofagia 2 (6,7%) e movimentos aleatórios repetitivos na cocheira 1 (3,3%).

Os números do presente estudo também superaram os encontrados por Pagliosa12 na avaliação de equinos  da cavalaria militar, com lambedura de cocho representando 23,6%, movimentos aleatórios de cabeça (8,3%), morder objetos (4,2%), aerofagia (2,8%) e dança de urso (1,4%). A exceção foi em relação à coprofagia, que representou 80% dos casos de Pagliosa12 e  neste estudo  apenas 11,8%  dos casos. Este fato pode estar associado ao manejo sanitário das cocheiras que, naquele grupo, mostrou-se bastante precário.

De acordo com Mcgreevy8, a aerofagia com apoio apresenta resultados de  de 2,4% a 8,3% da população equina e isso dependerá do manejo e raça do animal. Já Ribeiro7, afirma que a aerofagia de uma forma ampla em equinos, tem prevalência de 5,5% a 10,5%  da população geral, porém, neste estudo, foram encontrados 11,8% dos animais com aerofagia com apoio, logo, um pouco acima dos percentuais estabelecidos.  

         A idade dos animais variou entre 5 a 18 anos, (média de 11 anos) e escore corporal entre 2,5 e 4,5 (média 3,2) em uma escala que variava de 1 a 5 segundo Magalhães10. Gontijo11 encontrou média de escore corporal 3,4, semelhante a encontrada neste estudo que segundo o autor, é considerada bom escore corporal, referenciando práticas de bom tratamento. 

        Os animais se encontravam em sistema intensivo, alojados em cocheiras que variavam de 2,90 x 3,60 m a 3,50 x 3,90 m, porém, segundo  Mcgreevy4,  equinos com peso entre 500 e 600 kg devem estar alojados em baias de pelo menos 4 x 4 m a 4 x 5 m. Baias pequenas com pouca comunicação com o meio externo predispõem a ocorrência de estereotipias comportamentais.3

       A estabulagem leva a restrições de comportamento, e para animais que têm como origem a vida em liberdade, isso pode acarretar transtornos que alteram o bem-estar e a saúde, levando-os a distúrbios comportamentais.7  

Segundo Cintra1; HOUPT & Mcdonnel5, cavalos que trabalham mais e saem mais de suas cocheiras tendem a apresentar menos estereotipias (Tabela 2).

Esta afirmação foi observada neste estudo, onde os 3 animais que não apresentaram vícios exerciam as seguintes atividades: 1 animail pertencente ao grupo 5, que corresponde aos que trabalham de 40 a 50 minutos pela manhã (trote , galope e caminha montado, saltos a cada 7 dias e um descanso semanal) e a tarde caminham puxados de 10 a 30 minutos, o outros animal pertencia ao grupo 6, que correspondem aos que trabalham na mesma atividade anterior, porém, por 60 minutos pela amanhã e caminham puxados a tarde de 10 a 20 minutos, com uma folga semanal.

Por fim, representando o grupo 7, havia um animal com a mesma atividade de trabalho mencionada anteriormente, porém exercida 3 vezes ao dia,  40 minutos por 3 dias semanais, e nos dias sem trabalho ficava solto no picadeiro por 30 minutos.

Tab.2 – Estereotipias encontradas em relação ao tempo de trabalho exercido

 

Estereotipias 

 

Grupo0 

 

Grupo1 

 

Grupo 2 

 

Grupo 3 

 

Grupo 4 

 

Grupo 5 

 

Grupo6 

 

Grupo7 
Lambedura de objetos na baia  

 

Coprofagia     

 

 Mordedura de objeto 
    Aerofagia   

 

Movimento repetitivo de cabeça   

 

Agressividade   

 

 

Vício de língua 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Quebra nozes 
 Dança de urso 
Movimentos aleatórios repetitivos na baia.   

 

 Comportamento de fuga 
Animais sem estereotipias      0     0     0     0     0 1     1     1

Fisioterapia em Equinos com Esparavão Ósseo – Relato de Caso

 Legenda: Grupo 0 > Animais que não trabalham; Grupo 1 > Animais que trabalham de 30 a 40 minutos 1 vez ao dia; Grupo 2 >  Animais que trabalham 40 a 50 minutos 1 vez ao dia; Grupo 3 > Animais que trabalham de 45 a 60 minutos 1 vez ao dia; Grupo 4 >Animais que trabalham 30 a 40 minutos pela manhã e caminham puxados de 15 a 20 minutos a tarde; Grupo 5 > Animais que trabalham de 40 a 50 minutos pela manhã caminham puxados de 10 a 30 minutos a tarde; Grupo 6 > Animais que trabalham 60 minutos pela manhã e caminham puxados de 10 a 20 minutos a tarde; Grupo 7 > Animal que trabalha 3 vezes por semana, durante 3 vezes ao dia por 40 minutos e quando não trabalha é solto no picadeiro de  30 minutos 

 

Dos 4 animais que se encontravam  fora de suas atividades clássicas,  um estava sob esta condição por aproximadamente 10 meses, caminhando montando por 30 minutos apenas, e os outros 3 se encontravam estabulados 24 horas ao dia, por períodos que variavam de 2 semanas a 3 meses.

Os tratadores desses animais alegaram que os 4 pioraram o comportamento e aumentaram a incidência de estereotipias neste período.5,13

        Em relação à socialização dos animais deste estudo, os resultados obtidos estão de acordo com  Mcgreevy8, que alegam que  cavalos criados em baias, onde ocorre a possibilidade de contato visual, tendem a apresentar menos incidência de vícios quando comparados com animais alojados em baias cujo contato visual com outros animais e seres humanos é mínimo.

Neste estudo observou-se que apenas 3 animais dos 34 avaliados, não apresentavam estereotipias comportamentais, sendo que 2 deles estavam alojados em baias com comunicação interna realizada por janela onde uma media 1 x 1m e a outra 1 x 0,80m e o terceiro ficava solto cerca de 30 minutos por dia quando não estava em atividade.  

         Segundo Dittrich14 o forrageamento é uma importante fonte de nutrientes e  além disso atua na prevenção de doenças e de problemas comportamentais.

Tal afirmação está de acordo com o encontrado nesta pesquisa onde a grande maioria dos animais que apresentava alguma estereotipia comia uma quantidade muito pequena de volumoso, que variava entre 2 e 12 kg de feno e 2 a 12kg de capim por animal/dia (Tabela 3). Em relação ao concentrado, a quantidade variava de 2 a 6 kg diários por animal (Tabela 4).

Neste aspecto, Proudret15  afirma que em vida livre, a alimentação em pastagem ocupa o tempo de aproximadamente dois terços diários de um cavalo, fato este oprimido em animais encocheirados, influenciando em seu bem-estar, contribuindo para o ócio e por consequência para as estereotipias.

Tab.3 – Manejo alimentar peletizado diário

Alimentação peletizada 2 a 4 kg/ dia  5 a 6 kg 
   n (%) 22 (64,7%) 12 ( 35,3%)

 

Tab.4 – Manejo alimentar volumoso

Volumoso: feno/ alfafa: 2 a 6 kg    feno/ alfafa : 7 a 12 kg capim de 2 a 6 kg capim de 7 a 12 kg Tratadores que não souberam quantificar
n (%) 20 (58,8%) 8 (23,5%) 19 (55,9%) 4 (11,7%) 7 (20,5%)

 

Os equinos do presente trabalho, por vezes, passaram até 13 horas em jejum, com ausência total de pastejo, levando – os ao estresse que antecede o momento da alimentação gerado pela ansiedade.

 De acordo com Primiano16 animais encocheirados demoram entre 2 a 4 horas para consumir o alimento fornecido, já em piquetes ou vida livre demoram entre 12 a 14 horas, por isso o autor conclui que o ideal seria alimentar o cavalo em pequenas porções com intervalo de 2 horas intercalados entre ração, feno e capim, porém cavalos podem passar até 12 horas sem receber alimento (período noturno) ocasionando problemas como coprogafia, aerofagia e gastrite, vistos neste estudo.

           Segundo Johson17  o uso exagerado de concentrado na dieta de equinos estabulados aumenta a incidência de estereotipias orais, como morder objetos na baia e lamber objetos na baia, vistos em grande número neste estudo, representados respectivamente  por 55,9% e 35,3% dos animais.

           De acordo com Fagundes18, a domesticação modificou hábitos importantes, levando o cavalo a caminhar pouco e ficar longos períodos em jejum, posteriormente se alimentando com ansiedade e compulsão, levando à ocorrência de cólicas. 

A aerofagia está relacionada às cólicas gasosas e úlceras gástricas, além de encarceramento de forame epiplóico.5,7

Uso do Pentosano Polissulfato de Sódio em Tendinites

         Em relação ao bem estar, espojar-se consiste em um ato que traz muita tranquilidade para o equino, comum quando querem coçar suas costas, feito através do ato de rolar de um lado para o outro.

19 Esse comportamento pode acontecer frequentemente após o trabalho de monta, reforçando a ideia de que o animal deve ser solto em um piquete após o trabalho para garantir equilíbrio mental, já que nas baias o tamanho é muito reduzido não permitindo o relaxamento completo. Neste sentido, as baias dos animais analisados variaram 2,90 x 3,60m a 3,50 x 3,90 m, sendo este tamanho considerado pequeno para proporcionar um bom relaxamento.1         

A cama dos cavalos era limpa diariamente, segundo os tratadores, além disso, era recomposta uma vez por semana para 32 (94,2%)  animais e duas vezes por semana para 2 (5,8%)  animais. É fundamental que a cama esteja limpa e suficiente pois um dos fatores que pode levar à coprofagia em equinos adultos é decorrente da falta de limpeza na cama do animal.4,15 

Alguns dos métodos para prevenção de estereotipias apontados na literatura, se referem ao uso de trombetas para redução de coprofagia, coleiras e a retirada de superfícies de apoio para evitar aerofagia1,6. Dentre estes o uso da trombeta (biqueira) foi observado neste estudo, porém ao retirá-la  o animal comia mais fezes, e se mostrava incomodado com o uso, notou-se então que ao fornecer uma quantidade maior de feno, posta o dia todo, o animal não executava o vício, sendo visto como eficaz em relação a diminuição do ócio.11 

O uso das coleiras para evitar o ato de engolir ar, também foi observado, mas os animais ao executarem a aerofagia, poderiam estar ou não utilizando a coleira, já a retirada das travas de apoio foram observadas, mas os animais acabavam desenvolvendo outras formas para execução da estereotipia, como apoiar no cabo de amarração ou no cocho.

O choque elétrico, travas de correntes, canos ao redor das travas, podem evitar apoio para a realização de aerofagia, assim como a própria retirada de travas.

O uso de substâncias não palatáveis na madeira, para evitar a mastigação ou apoio dos dentes foram vistos com frequência neste estudo, porém o choque elétrico foi observado apenas ao redor das portas da cocheira, logo o animal poderia escolher outro local como apoio, assim como as travas de correntes que desfavoreciam o ato apenas naquele local.

O uso de substancias não palatáveis se mostrou eficaz em relação a mordedura de madeira, porém os animais observados sobe esta condição apresentavam mais de uma estereotipia.1 

A retirada das travas foi vista neste estudo, em um animal que realizava aerofagia, porém torna a comunicação visual muito restrita, pois a cocheira pode permanecer fechada durante todo tempo para evitar a fuga do animal, tendenciado o aparecimento de novas estereotipias.1

           Engolir ar é um ato de difícil correção, porém pode ser reduzido ao eliminar superfícies que poderão servir como apoio ou associar o uso de corrente elétrica nessas superfícies.

Os autores afirmam que ao colocarmos substâncias não muito palatáveis sob a superfície de apoio utilizada pelo animal ajuda bastante, assim como as coleiras presas de forma justa na garganta do equino e coleiras de choque utilizadas por cães que latem muito, e que podem ser adaptadas ao cavalo, a fim de dificultar a execução da estereotipia.5  Segundo Nicoletti 20 o uso de colares específicos com material metálico, colocado na região da garganta do cavalo tem eficiência controversa no controle da aerofagia, especialmente em casos antigos.

Segundo esse autor forma mais eficiente para correção da aerofagia, inicialmente, consiste na alteração do manejo com a retirada de objetos que sirvam de apoio ao cavalo “engolidor de ar”. 

            Foram observadas, bolinhas penduradas na porta da cocheira, para redução de ócio, porém não houve relatos de interesse dos animais em relação ao brinquedo 

          Cestinhas de feno com a intenção de prorrogar o tempo de alimentação, foram observadas, demostrando interesse pelo animal, tendo bom resultado em relação a diminuição do ócio.7,15

        Madeiras postas ao redor da porta da cocheira, com o objetivo de evitar a movimentação do pescoço e parte anterior do equino, foram vistas em um caso de “Dança de urso”, porém o animal recuava para dentro da cocheira e executava a estereotipia no meio da baia, logo o método não foi utilizado por muito tempo.

CONCLUSÃO  O estudo permitiu identificar que animais estabulados na Sociedade Hípica Brasileira no Rio de Janeiro, exercendo atividade de Hipismo Clássico, apresentam um alto índice de estereotipias, provavelmente associadas ao manejo ao qual são submetidos. Faz-se necessário estudos mais detalhados a fim de se estabelecer medidas mais eficazes para controle dessas estereotipias.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos os equinos presentes na Terra, por contribuírem com as conquistas da humanidade e principalmente por arriscarem suas integridades físicas e mentais em prol de nos servir. 

A minha tão querida professora Natália Rebouças, por toda dedicação, apoio e lembrança.

Aos meus pais, avós e em especial a minha irmã, por sempre acreditar e não desistir de mim, por vibrar por minhas conquistas fazendo-as como suas.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

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