Info Equestre
Clínica Edição 5º Ano 2020

Coronavírus e Infecção na Especie Equina

Coronavírus e Infecção na Especie Equina 1
V.5, Ed.1, N.97 (2020)

CORONAVÍRUS E INFECÇÃO NA ESPÉCIE EQUINA 

SILVEIRA, A.P Médica Veterinária CRMV/RS 17514

 

RESUMO

 

O coronavirus faz parte de um grupo viral que possui cepas capazes de infectar humanos e animais, são globalmente distribuídos e responsáveis por infecções geralmente brandas  e  eventualmente  surtos mais virulentos. A cepa viral que acomete os equinos é denominada ECoV associada a hipertermia sinais entéricos e com menos frequência neurológicos. O diagnóstico é feito através da compatibilidade de sinais clínicos, linfopenia e presença do vírus nas fezes do equino. O tratamento não é sempre necessário, pois trata-se de uma afecção autolimitada, exceto em casos onde ocorram complicações como cólica, endotoxemia e encefalopatia, onde deve-se instaurar suporte terapêutico o mais breve possível. O intuito desta revisão é reunir informações sobre a coronavirose equina

Palavras-chave: Coronavírus, equinos, ECoV.

ABSTRACT

Coronaviruses are a viral group that has strains capable of infecting humans and animals, are globally distributed and responsible for generally mild infections and eventually more virulent outbreaks. The viral strain that affects horses is called ECoV associated with hyperthermia enteric signs and less frequently neurological. The diagnosis is made through the compatibility of clinical signs, lymphopenia and the presence of the virus in the horse’s feces. Treatment is not always necessary as it is a self-limited condition, except in cases where complications such as colic, endotoxemia and encephalopathy occur, where therapeutic support should be established as soon as possible. Thepurposeofthis review istogatherinformationonequinecoronavirus.

 

Keywords: Coronavirus, horses, ECoV.

 

INTRODUÇÃO

 

A  presença do coronavírus foi reconhecida pela primeira vez e definida morfologicamente como um grupo em 1968. (COOPER, et al 1982). Os coronavírus são vírus que possuem o seu RNA envelopado de cadeia simples, não segmentados, pertencentes à família Coronaviridaeesorologicamente podem ser divididos      em quatro  gêneros Alphacoronavírus, Betacoronavírus, Gammacoronavírus e Deltacoronavírus (OUE, et al, 2013).

São os responsáveis por enfermidades respiratórias, entéricas, hepáticas e neurológicas na maioria dos mamíferos e aves domesticas e silvestres. (COOPER, et al 1982) Infecções são comuns ao longo da vida e a maior parte delas é capaz de causar manifestações clínicas apenas nas espécies das quais foram isolados e replicados predominantemente. (HOLMES, 2013., COOPER, et al, 1982).

Os membros da família Coronaviridae possuem alta variabilidade genética, taxas de mutação elevada, em consequência disso são globalmente distribuídos, responsáveis por distúrbios respiratórios e gastrointestinais, agudos ou crônicos em humanos e animais. (JACKWOOD, 2006).

As infecções sazonais geralmente estão associadas a sintomas gripais em humanos, entretanto  ocorreram  surtos  mais  virulentos  nos  últimos  vinte  anos  (LANA,  et  al, 2020).

Atualmente  o  (SARS  COV2)  é  vírus  responsável  pela  pandemia  de  COVID-19,  dados disponíveis sugerem que a infecção possui transmissão limitada entre humanos. (GROOT, et al 2020). Trata-se de uma nova estirpe do vírus causador do surto de síndrome respiratória aguda grave (SARS-COV) em 2003. (GORBALENYA, et al, 2020).

Anos após surtos de SARS-CoV, ocorreu um novo surto em humanos causador de pneumonia e insuficiência renal, intitulado como (MERS-CoV) Síndrome respiratória do oriente médio (HILGENFELD 24 & PEIRIS 2013).

O coronavirus responsável por enfermidades na espécie equina é denominado ECoV e trata-se se de um betacoronavirus (MATTEI, et al 2020), capaz de promover desordens gastrointestinais que acometem cavalos adultos e potros.(OUE, et al, 2013., TESSON, et al 2014) As enterocolites causadas por coronavirose tem demonstrado ser importante causa de mortalidade e morbidade em equinos neonatos. (MEIRELLES, et al 2011)

CORONAVIRUS EQUINO – ECoV

O ECoV foi isolado pela primeira vez nos Estados Unidos das fezes de um potro diarreico em 1999, após esse caso houve surtos com sinais clínicos no Japão em animais adultos, fora dos países citados há pouca informação sobre a circulação do ECoV nos equinos. (TESSON, et al, 2014).

Tratando-se de um vírus principalmente entérico a transmissão é realizada pelo ciclo fecal-oral, a infecção ocorre durante a ingestão hídrica e de alimentos anteriormente contaminados com resquícios fecais de animais infectados. (PUSTERLA, et al, 2018).

O coronavírus equino pode ser detectado em potros saudáveis e potros com diarréia, aparentemente a diferença entre animais saudáveis e clinicamente afetados é a presença de agentes infecciosos secundários, os potros saudáveis geralmente mostram apenas infecção por ECoV, enquanto a presença em potros com doença gastrointestinal estava associada a outros agentes patológicos. (MEIRELLES, et al 2011., PURTERLA, et al, 2018)

O efeito deletério da presença do vírus no potro é a predileção por uma infecção secundária, como ocorre em variáveis genéticas que acometem outras espécies. (PAKPINYO, et al 2003). Entretanto os animais adultos enfermos demonstram preponderante infecção única do ECoV. (PUSTERLA, 22 et al, 2018)

SINAIS CLÍNICOS APRESENTADOS POR EQUINOS INFECTADOS

A apresentação do vírus em mamíferos tem demonstrado alterações intestinais respiratórias e/ou neurológicas. (TESSON, et al 2014) Nos cavalos o ECoV cursa principalmente com manifestações entéricas, como cólica e diarreia, no entanto há descrição de comportamento letárgico dos animais, ataxia, convulsões e decúbito bem como apresentação clínica de hipertermia, no estudo hematológico pode haver redução da contagem leucocitária, isto é, informações inespecíficas que tornam distante a suspeita clínica de coronavirose. (PUSTERLA, et al, 2018).

Os quadros neurológicos de ECoV que cursam com encefalopatia podem estar associados ao aumento da produção de amônia no trato gastrointestinal pela alteração bacteriana e aumento de absorção causada pela alteração da barreira do epitélio intestinal (GIANITTI, et al 2015).

Os parâmetros bioquímicos não são diretamente alterados, mas a anorexia e enterocolite do paciente podem gerar alterações em relação a distúrbios eletrolíticos, enzimáticos e parâmetros renais. (PUSTERLA, et al, 2018)

DIAGNÓSTICO

É fundamental compreender que a eliminação fecal do agente não é absolutamente significativa de que os sinais clínicos são relacionados ao ECoV, analisado que é possível haver a presença do microrganismo em excreções de animais saudáveis e portadores crônicos (MEIRELLES, et al, 2011).

O diagnóstico da infecção por ECoV é baseado na compatibilidade de sinais clínicos alterações hematológicas exclusão de outras enfermidades infecciosas e detecção do patógeno nas fezes do animal por método de PCR. (PUSTERLA, et al, 2013., PUSTERLA, et al, 2018).

A sorologia pareada e cultivo viral e imuno-histoquímica de lesões intestinais também podem confirmar o diagnóstico. (MEIRELLES, et al 2011)

TRATAMENTO

O suporte é aconselhado em casos onde os sinais clínicos permanecem após passado um período de 24 horas do início. Pode haver a utilização de anti-inflamatórios não esteroidais, com cautela aos efeitos deletérios ao TGI equino. Os animais que apresentarem quadros mais graves de diarreia persistente e cólica devem ter suporte de fluidoterapia e eletrólitos.

O veterinário deve estar atento a sinais de endotoxemia secundária a perda da barreia intestinal e necessidade de utilização de protetores de mucosa e antimicrobianos. A atenção deve estar focada também aos sinais de encefalopatia, caso ocorram a instauração imediata de tratamento é imprescindível, utiliza-se lactulose, a neomicina oral está associada resultados positivos (PUSTERLA, et al, 2018).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A infecção por coronavirose promove eventualmente a liberação fecal com ausência de sinais clínicos, permitindo concluir que os animais podem ser portadores crônicos do vírus.Normalmente os pacientes infectados não necessitam de tratamento, pois na maioria dos casos o ECoV se comporta de forma autolimitante.

 

REFERÊNCIAS

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