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Notícias Edição 6º Ano 2021

Salmonelose em Potros

Salmonelose em Potros
V.6, Ed.1, N.10(2021)

Salmonelose em Potros

TAVARES, L. M.¹

¹Letícia Moraes Tavares, 8° período, Universidade Paulista, São José dos campos.

 

Salmonelose é uma bacteriose causada pelo gênero Salmonella spp. (bactéria gram negativa), é uma zoonose que afeta várias espécies mundialmente, além de ser uma das maiores causadores de enterite em equinos (JUFFO et al, 2016). Nesse texto será abordado um pouco sobre a história, etiologia, epidemiologia, transmissão, fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico, terapia e profilaxia da salmonelose em potros.

Em meados de 1970, os surtos de diarreias em potros eram associados à Salmonella spp., Corinebacterium equi, Streptococcus spp. e Actinobacillus equi (CALEFFO, 2017).

A transmissão ocorre, normalmente, por água e alimentos contaminados (HAQ et. al., 2017), suas fontes de infecção são água, alimento e fezes contaminadas (HAYASHI, 2017). A bactéria atinge o epitélio intestinal e produz toxinas irritando os tecidos locais (HAQ et. al., 2017).

A doença em questão pode ser assintomática ou, como geralmente ocorre, estar relacionada a enterocolite, enterotiflocolite e septicemia (OLIVEIRA et. al. 2019, HAYASHI, 2017). Cerca de 6-13% de animais saudáveis testados em hospitais são positivos para Salmonella e quando a salmonelose é associada à outra doença pode ser fatal (HAQ et. al., 2017).

Em geral o potro pode apresentar febre, diarreia (normalmente amarelada e com odor fétido), depressão e choque hipovolêmico. A morbidade e mortalidade varia de acordo com a idade, do sorovar responsável pela infecção, além de fatores predisponentes como estresse, cólica, imunossupressão, antibioticoterapia intensa, cirurgia e manejo sanitário precário (HAYASHI, 2017).

A Salmonelose hiperaguda é a mais severa, acomete principalmente potros entre um a seis meses de idade e pode levar a morte em 24 a 72 horas (HAYASHI, 2017). Sendo que potros com menos de quatro meses apresentam maior risco de septicemia, logo óbito (JUFFO et al, 2016).

Na salmonelose hiperaguda os sinais clínicos mais comuns são: aumento da frequência cardíaca, febre, leucopenia, anorexia e choque séptico. A forma aguda manifesta-se por diarreia, anorexia, neutropenia e febre. O estágio crônico da doença apresenta diarreia como principal sinal (HAQ et. al., 2017).

Na necropsia pode ser observada congestão do intestino delgado, lesões ulcerativas (pseudomembrana gerando aspecto acinzentado) em ceco e cólon maior, edema e aumento de volume pulmonar e linfonodos mesentéricos, além de petéquias e equimoses nas serosas (HAYASHI, 2017).

Outros achados necroscópicos são lesões friáveis e ulceradas estendendo-se entre serosa e mucosa intestinal. A mucosa apresenta-se, geralmente, enrugada, espessa, hiperémica e discretamente granular. Podem ser observadas também áreas circunscritas recobertas de fibrina e com halo hiperémico. As lesões mais prevalentes são hiperemia, equimoses e petéquias difusamente distribuídas (JUFFO et al, 2016).

Imagem 1 – Lesões macroscópicas de equinos diagnosticados com Salmonelose Fonte: JUFFO et al, (2016).
Imagem 1 – Lesões macroscópicas de equinos diagnosticados com Salmonelose Fonte: JUFFO et al, (2016).

Histologicamente, pode ser evidenciado enterite necrótica hemorrágica e/ou fibrinonecrótica, principalmente, no ceco e cólon caracterizando a salmonelose (JUFFO et al, 2016).

O diagnóstico definitivo pode ser feito por meio do PCR (cadeia de reação polimerase), cultura microbiológica das fezes (mais específico, porém, tem baixa sensibilidade e é demorado). Os testes citados devem ser solicitados sempre com base na anamnese e exame físico (HAYASHI, 2017).

Há predisposição de Salmonelose em potros que vivem próximos a granja de suínos, locais com roedores e com altas temperaturas (CALEFFO, 2017). Cavalos em restrição alimentar, que receberam antibioticoterapia, mantidos em espaços restritos (por exemplo, ambiente hospitalar) também são predispostos a doença em questão (JUFFO et al, 2016).

Oliveira (2019) relatou um caso de Meningoencefalomielite por Salmonella enterica subsp. enterica sorovar Typhimurium, caso muito raro e de alta mortalidade, no qual a potra apresentou uma onfaloflebite purulenta e necrótica. O sorovar supracitado tem enorme importância zoonótica e gera riscos a saúde pública, é um dos mais comuns em humanos; já gerou 1,2 milhões de casos com 450 mortes notificadas. Considerado uma doença ocupacional por atingir majoritariamente trabalhadores que tem contato com animais infectados.

Uma pesquisa brasileira avaliou seis equinos com diarreia, todos positivos para salmonelose, no qual foram isolados S. anatum, S. Tiphimurium e S. muenster (JUFFO et al, 2016).

A Salmonella enterica subsp. enterica serovar Abortusequi, no continente asiático e africano, é a principal causadora de aborto em éguas, sepse e poliartrite em neonatos.  Essa é esporadicamente isolada nos Estados Unidos, Itália e Europa em geral. Esse sorovar representa alta mortalidade em potros da Itália (GRANDOLFO et. al., 2018).

Em um estudo no Brasil a Salmonella Tiphimurium apresentou resistência a ampicilina, cefalexina e resistência intermediária a enrofloxacina, antibióticos utilizados frequentemente na clínica de equinos para o tratamento da salmonelose (OLIVEIRA et. al., 2019). Um trabalho no Paquistão revelou 11,25% de positividade para diversos sorovares da Salmonella após testar amostras de fezes de 235 potros, 165 asininos e 47 muares por PCR. O estudo revelou que a incidência da bactéria foi maior em potros que visitaram hospital veterinário ou eram de planteis superlotados em relação àqueles que eram mantidos sozinhos (HAQ et. al., 2017).

A prevalência da bactéria nos muares pode ser justificada pela sua predisposição a colonização bacteriana, ambientes pouco higiênicos e condições de estresse, ao contrário do observado em asininos os quais demostraram mais anticorpos contra Salmonella (HAQ et. al., 2017).

Uma pesquisa na Itália relatou a morte de 10 potros (de um total de 34) que apresentaram sinais clínicos muito severos (febre acima de 41°C, letargia, diarreia sanguinolenta e claudicação) morreram nos primeiros dez dias de vida, sendo que as mães não apresentaram manifestação clínica. Durante a necropsia de dois potros identificou-se inflamação difusa e hemorrágica do ceco e cólon maior, pulmões congestos, lesões necróticas nos rins e fígado; os linfonodos mediastínicos estavam reativos e hemorrágicos (GRANDOLFO et. al., 2018).

No antibiograma as culturas foram suscetíveis a cloranfenicol, tetraciclina, ampicilina, amoxicilina com clavulanato, cefuroxima, ceftazidima, gentamicina, enrofloxacina, e sulfametoxazol–trimeoprim. Resistentes a doxiclina, colistina, ciprofloxacina, estreptomicina e sulfametoxazol) (GRANDOLFO et. al., 2018).

Uma pesquisa no Paquistão revelou resistência bacteriana de diferentes sorovares para: sulfametaxol – 23,75mg (resistência de 86%, sendo a de maior índice), trimetropina – 5 mg (resistência de 4%, de menor grau), além de doxiciclina – 30mg, oxitetraciclina – 30mg, streptomicina – 10mg, neomicina – 30mg, amicacina – 30mg, claranfenicol – 30mg, ampicilina – 10mg, amoxicilina – 10mg, canamicina -30mg, norfloxacina – 10mg, gentamicina – 10mg, cefotaxima – 30mg, ciprofloxacina – 5mg e ceftriaxona – 30mg evidenciando a importância do uso conciente e cuidados de antibióticos para mitigar o surgimento de superbactérias (HAQ et. al., 2017).

A salmonelose é uma zoonose de importância em saúde única e na saúde do plantel, uma vez que seu agente causal tem alta resistência antimicrobiana dificultando a eficácia do tratamento, podendo levar os pacientes a sérias consequências individuais e públicas. Esses riscos podem ser minimizados realizando manejo sanitário ideal (controle de pragas, barreira ecológica, entre outras medidas), além de planejar instalações com melhor troca e fluxo de ar. Dessa forma vale a pena consultar um médico veterinário para prevenir e, caso necessário, tratar potros com salmonelose.

 

REFERÊNCIAS

CALEFFO T. Frequência de Lawsonia intracellularis e rotavírus em equinos criados no oeste paraná. Dissertação. Grau de Mestre em Medicina Veterinária, no Curso de Pós-Graduação em Ciência Animal, Setor de Palotina, da Universidade Federal do Paraná. Palotina, 2017.

GRANDOLFO E. et al. High mortality in foals associated with Salmonella enterica subsp. enterica Abortusequi infection in Italy. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation. 1–3. 2018.

HAQ, I. et. al. Study of antimicrobial resistance and physiological biomarkers with special reference to Salmonellosis in diarrheic foals in Punjab, Pakistan. Acta Tropica, 176, 144–149. 2017.

HAYASHI L. K. et al. Quadro hiperagudo de salmonelose em potro: relato de caso. Rev. Acad. Ciênc. Anim.;15(Supl.1):S345-346.2017.

JUFFO, G. D., et al. Equine salmonellosis in southern Brazil. Tropical Animal Health and Production, 49(3), 475–482. 2016.

OLIVEIRA, J. G. et al. Meningoencefalomielite por Salmonella Typhimurium em potro. Ciência Rural, Santa Maria, v.49:08, e20190008, 2019.

 

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